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sábado, 4 de dezembro de 2010

ENLACE, AFETO E DESEJOS

        

 Satã Observando o Amor de Adão e  Eva
William Blake -Museu de Belas Artes Boston
                                                                   
Sonhei que havia entrado numa loja agropecuária na intenção de comprar (acho que) uma essência, mas eu precisava consultar minha mãe antes e nisso peguei a chave de um dos quartos do local planejando de lá dormir. Entretanto eu já estaria podendo ir dormir em casa. Parece que esta estava em reforma, mas não sei ao certo. Enquanto pensava se dormia lá e também se efetuava ou não a compra desejada, olhei para uma propaganda de lápis de cor aquarela e comecei a conversar com uma senhora que estava observando o estande de desenhos também. Disse-lhe que adorava trabalhos artísticos e não me imaginava sem lápis de cor em casa. Nisso parece que o sonho deu um avanço e logo na sequência sentei-me numa mesa aos fundos da loja. Havia um rapaz e duas moças na mesa e posicionei-me ao lado do rapaz. Nisso ele pegou minha mão e passando-a por trás das costas dele segurou-a do outro lado, de forma que fiquei abraçada a ele. No sonho ele pareceu-me um conhecido de longa data e, embora não compreendesse tal atitude de querer ficar abraçado a mim, notei que ele parecia menos arrogante e mais carinhoso. Pensei comigo no quanto é bom sermos passíveis de mudanças para melhor, pois eu também me sentia mudada: muito mais tranquila e segura de mim perante aquela situação. Vendo-me abraçada a ele pensei que os outros achariam que nós eramos um casal, já que eu usava um anel no mesmo lugar donde se usa aliança. Mas em seguida eu concluí o pensamento com a pergunta: e daí os outros e seus pensamentos?

Um vendedor veio nos atender e começou a conversar dizendo que me vira na rua quando fora fazer uma entrega e depois não parou mais de falar até o momento em que se retirou. Eu não estava interessada na conversa, apenas queria aproveitar aquela intimidade provinda do acaso. Estava aconchegante e fiquei abraçada sem saber quais seriam as reais intenções ou motivos que levara aquele rapaz a querer, inusitadamente depois de anos, ficar tão próximo. Desconfiada pensei que ele poderia estar com interesses maiores e busquei dentro de mim saber dos meus próprios interesses para com ele. Em verdade não consegui definir meus próprios interesses de antemão, pois tudo ou nada podia acontecer. Verifiquei que não poderia responder naquele momento sobre algo incerto que poderia ou não vir a acontecer no depois. Preferi deixar os fatos ocorrerem sem ficar matutando neles. Eu não queria desde tal momento dar uma de controladora da situação, nem muito menos me colocar na defensiva. Educadamente ele manteve-se abraçado a mim e sentada lado a lado, deitei a cabeça em seu ombro, coloquei pela parte da frente o outro braço em seu colo e fechei os olhos aproveitando o momento que embora misterioso parecia mágico. Nisso uma das jovens da mesa se transformou na minha avó e, em tom de crítica, comentou algo a respeito de trabalho. No sonho parece que eu estava desempregada, ou então seria o rapaz. Nisso a outra jovem respondeu que onde ela trabalhava estavam precisando de novos funcionários e num ar de sarcasmo perguntou se minha avó estava interessada de mandar um currículo para a empresa. Era como se ela quisesse dizer: se não é você quem está interessada, porque o comentário indireto? Eu estava tão bem que nem liguei para as indiretas de minha avó. Cada um com sua vida e coitada da vovó que julga os desempregados como vagabundos. Azar o dela em manter suas crenças destorcidas.

PSICOLOGIA E PSICÓLOGOS

Muitas vezes Psicólogos e Psicologia são criticados pelo tempo elástico de tratamentos. Críticas infelizes. Esse tempo terapêutico independe da ciência ou de profissionais, ele é ditado pelo “time” do sujeito que determina seu ciclo, sua dinâmica, seu movimento de mudança, o tempo de transformação. E se cada sujeito possui seu “time” a natureza tem seu ritmo em sincronia com o ritmo do mundo, do universo e determina em grande parte a consolidação das transformações que opera.

Neste sonho vemos algumas recorrências que me oferecem a chance de tentar mostrar o acontecimento, seu ritmo e intensidade.

Ainda que a sociedade humana contemporânea se caracterize pela aceleração, o “tempo” da vida não mudou, o tempo do universo continua o mesmo. Nós aceleramos nossa vida, nossos ritmos, nossas ações acreditando que mudamos a natureza. Mas o mundo e o seu Tempo permanecem o mesmo. Em equilíbrio rítmico e vibratório e quando o deixa de ser, em geral sofremos as graves consequências dessas transformações.

O corpo é lento e possui limites intransponíveis, altera-los pode significar promover desequilíbrio na delicada complexidade que sustenta os sistemas que nos dão a condição de natureza viva.

Vejamos o seu estado Onírico:

Você, ao longo desse ano vem registrando delicadas mudanças na sua configuração psy que refletem em seu comportamento em vigília e na dimensão onírica, indicam mudanças de atitudes, percepção, conceitos em decorrência de resignificação.

Pequenos acontecimentos que vão se transformando e que ao longo deste tempo já nos permite a percepção de transformações que posso qualificar como significativas. Principalmente porque não estamos em processo psicoterapêutico e com informações diminutas faço a leitura de seus sonhos indicando-lhe possibilidades, necessidades e alternativas de posturas diante de sua realidade.

Ainda assim podemos ver que ao longo destes meses seus sonhos mudaram significativamente, sinal da mudança psy.

Inicialmente uma fase superada foi a de pesadelos. Você os tinha numa recorrência preocupante, angustiante e desconfortável. Nos sonhos você sofria ameaças permanentes, inseguranças, medos, assaltos, roubos, assassinatos, sofrimento. Sempre a angústia, a ansiedade e o sofrimento. Dormir passou a se tornar ameaça de tormento e tormentas.

Mas você com inteligência, e necessitada, trabalhou para romper com esse quadro desagradável e infeliz. Soube ter paciência e humildade para considerar as indicações e realizar mudanças. Assim passou a obter resultados positivos em sua vida, administrando as disfunções e conquistando transformações, sinal significativo de sucesso.

Os pesadelos diminuíram ou praticamente desapareceram, passamos meses sem relatos de sonhos de angústia sinal de que a psique não tinha que intervir para proteger seus sistemas através de atualização, defesa e reequilíbrio.

Os pesadelos diminuíram porque a psique não precisa mais insistentemente regular os sistemas corporais, aumentar o limiar de sua capacidade de suportar as pressões internas, causadas por escolhas que a levavam permanentemente a situações de conflito, aflição e opressão, nem anunciar-lhe a iminência de situações de risco e de perigo. A instabilidade emocional foi sendo reduzida para níveis aceitáveis e você buscou estabelecer relações interpessoais mais aceitáveis e menos conflitantes.

Hoje a situação se difere do passado.

Sabemos que hoje você vive em dinâmica de transformação de símbolos, resignificação conceitual e reconfiguração na sua relação com a realidade, construindo padrões de comportamento menos reativos. E se vemos a recorrência de sinais ou temas isso decorre de:

1. Mudanças profundas exigem do sistema Psy alterações delicadas e pacientes, num ritmo que não coloque o organismo em risco ou ameaça de desconstrução;

2. Os ajustes se fazem em detalhes. Assim são as mudanças significativas. A codificação é alterada na especificidade.

3. Mudanças internas precisam ser assimiladas pelo sujeito para que se incorporem de forma consistente e sem conflitos, deixando de produzir sofrimentos em decorrência de valores e princípios resignificados.

Portanto não estranhe que uma leitura possa se aproximar de outras, isso demonstra a consistência do caminho que se percorre, tanto como pode reafirmar mensagens que precisam ser mais profundamente compreendidas. Mas não se deixe enganar, fique sempre atenta aos detalhes.

 
 
continua...

ENLACE, AFETO E DESEJOS


A Virgem - Gustav Klimt,
Galeria Narodni, Praga


O SONHO

O foco central do sonho é o afeto e a relação que estabelece com o seu desejo. Podemos pensar numa relação direta entre carência e desejo irrealizado. Quanto maior o desejo insaciado maior a carência ou a demanda por afeto. No seu caso, a força dos desejos é proporcional à força da repressão, e da expectativa de realiza-los sem precisar se comprometer. Como tudo o que envolvia relações e afeto lhe parecia confuso, maior podia ser a sensação de fracasso, a insatisfação, o isolamento e a frustração. E tanto maior a expectativa de saciar a fome do seu desejo.

Em geral quando isto ocorre, um dos desvios compensatórios pode ser a perversão o que também pode favorecer o aumento da repressão moral como forma do sujeito administrar a força de suas pulsões incontroláveis originárias do inconsciente.

No sonho você se aconchega, assume a atitude de aproximação, ainda não é capaz de assumir o seu desejo. Qual o seu desejo? Já lhe disse, distinga-o e procure a sua satisfação.

A postura defensiva se transforma, os conceitos são resignificados, mas permanecem resíduos de repressão, agora, revestido de “avó”. Velhos conteúdos, arcaicos, de referência feminina ou de mulheres do passado, que se contrapõe ao seu tempo, E você... Sem saber se segue a referência antiga, princípios de conduta social antiquados ou se liberta e assume a mulher que se permite seguir em busca da satisfação de seus desejos.

Sua tendência foi se proteger na repressão moral referendada em conceitos de gerações passadas.

Conceitos, preconceitos e novos conceitos. Esta é uma questão que envolve qualquer geração. Ser como a modernidade permite ou ser como foi a mãe, ou a avó? Arriscar a imagem pessoal e se mostrar como Devassa? Vender a imagem de Virgem Imaculada, ficando protegida socialmente mas sendo atormentada pelos desejos que corroem as entranhas?

Novamente a questão do Sagrado e do Profano.

Transformar-se no ideal de virgem santificada não acometida pela "sujeira" da sexualidade?

Arriscar-se no universo mundano, se permitindo a busca do êxtase carnal, se perdendo nos beijos profundos, na volúpia da  da carne penetrada, se entregando ao pecado e assumindo a mulher dona da própria vida, do destino e dos prazeres e da fantasia erótica?

Eu, pessoalmente, não vejo neste dilema um caminho fácil. Muitos apenas se lançam instintivamente realizando as pulsões da carne, mas para muitos isto pode significar um "suicídio". O dilema é crucial, renunciar ao pecado e viver a santidade, atormentada pelas fantasias do irrealizado? Ou se entregar à luxúria em busca de afeto, mergulhando no pecado e arriscando-se a se debater no inferno de Eros sem encontrar o caminho de volta para o sagrado? Ou acreditar que se pode megulhar na luxúria para arriscar encontrar o sagrado dentro do erotismo?

Não importa o caminho, cada um que escolha o seu, mas que seja um caminho vivido plenamente, para que no amanhã não exista o arrependimento do não vivido, que possa representar o grande fracasso e frustração. E óbvio, ter no mergulho o senso de se proteger porque o tempo é o senhor da razão, e ninguem deve ser tão tolo a ponto de acreditar que mergulhar nessa gosma de líquidos seminais e orgânicos não gera consequências indeléveis.

A questão do trabalho surge como o princípio de realidade que precisa ser considerado. É a grande referência, das conquistas pessoais: aprender a navegar nesta realidade para não morrer afogado na fantasia do irrealizado.

No sonho o trânsito pesssoal ainda indica rush, pouca luz sobre o tema, meia luz, as coisas não são muito claras, definidas. E as escolhas carregados de dúvidas ou conflitos. Comprar ou não comprar, trabalhar ou não, manifestar o desejo ou esconde-lo, etc. A estima ainda precisa ser consolidada e a libertação do julgamento alheio é o caminho para encontrar a maturidade.

A relação entre masculino e feminino vai sendo restaurada e caminha para relação interior mais harmonizada.
A jornada pelo aprioramento é assim, enquanto seguimos e rompemos as dificuldades mais suasve se torna a jornada mas mais dificeis e complexos se mostram os desafios a serem vencidos.

De resto uma certeza:

A vida é um grande desafio
para que se possa realizar os anseios do espírito.
É preciso arriscar,
É fundamental se lançar
para que possamos experimentar seus sabores e aromas,
Mas é imprescindível não se deixar morrer.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

SAGRADO X PROFANO



Em terceiro eu estava na casa de uma senhora cujos netos haviam tomado conta da casa, estavam dando uma festa nela e o som alto era estridente. A senhora veio me cumprimentar e começou a chorar e reclamar da situação. Aconselhei-a de rezar e tranquilizar a mente e o coração. Ela estava idosa, não tinha mais forças físicas, mas podia ter forças emocionais para não se irritar ou se entristecer com aquilo. Falei para ela entregar a situação nas mãos de Deus, desabafar e confiar a ponto de não se sentir abalada com aquele tormento. Expliquei-lhe que as pessoas possuem gostos e maneiras diferentes de viver, de conceber a vida e que só lhe cabia respeitar o fato da filha dela ter deixado seus netos tomarem conta da casa a ponto de promover uma festa, de encher a casa de gente e colocar aquela música barulhenta no ultimo volume. Compreendendo o que lhe dizia, a senhora abraçou-se a mim e assim ficou como uma criança que não quer largar o colo materno. Eu senti a carência dela por alguém que pudesse não apenas lhe compreender, mas lhe dar o apoio espiritual necessário. Nisso olhei para a bancada de bolos e doces que ali havia e, embora ninguém me houvesse oferecido, me convidado ou me deixado à vontade para comer, peguei um pequeno pedaço de bolo para provar. Depois peguei um doce e assim fui experimentando daqueles quitutes. Eu não estava com muita gula, pois embora tudo parecesse muito gostoso, apenas uma prova parecia deixar-me cheia.

Em dois tempos:

1. MECANISMO DO INCONSCIENTE

Não tenho informações sobre o local em que estava quando este sonho ocorreu. Se o local é barulhento, ou se naquela noite algum evento específico ocorreu neste cenário.

No sonho acima dois fatos podem estar inicialmente relacionados à condição física do ambiente e do sonhador:

1.

a) O BARULHO, ou ruídos, podem estar relacionados à redução da capacidade de filtros auditivos, o que seria indicativo de aumento do estresse do sonhador e consequente redução de defesas sonoras;

b) podem estar relacionados a ruídos elevados ocorridos naquela noite, naquele cenário, que tenham rompido o limiar de filtros e puderam ser utilizados pela psyquê para focalizar sua atenção sobre as relações sociais e a importancia da sintonia entre o comportamento e o momento da vida que se vive.

2.

a) O consumo dos doces podem indicar baixa glicose no organismo. Seria bom realizar, preventivamente, essa verificação através de exames;

b) A carência afetiva levando-a para a compensação oral através do consumo de açúcares.

A psyquê capta e se utiliza de recursos externos, estímulos que ocorrem enquanto o sujeito está em repouso, para enriquecer os sonhos, aumentando o realismo de sua construção onírica, através desses estímulos, o que favorece o fortalecimento da capacidade de retenção da memória do indivíduo dentro do sonho, consolidando sua consciência onírica, aumentando o limiar de resistência dessa consciência e a consolidando no sistema psíquico como estrutura de poder e referência. Este recurso serve, ainda, para focalizar determinados temas imprescindíveis ao sujeito.

Neste sonho, não por acaso, pode haver relação com a sua conduta no passado e com a forma desrespeitosa e invasiva com que, quando criança, estabelecia e definia sua forma de se relacionar com a familia. Preocupada com suas necessidades, se sentia no direito de atuar sem considerar as necessidades alheias.

Neste aspecto o sonho a confronta com uma realidade inquietante, desfavorável e perturbadora. E pode ainda haver culpa pelo passado desassossegado.

Naturalmente, hoje você possui outra consciência, e posturas mais amadurecidas. E sua psiquê, através do sonho, produz uma dinâmica que favorece a atualização dessa estrutura, e indique a necessidade de avaliar ou reavaliar a sua postura diante do acontecimento.

Mas internamente esse passado pode estar sendo compensado levando-a para um comportamento distante de sua realidade, do seu momento, do seu tempo.  É preciso abandonar as culpas do passado, os erros cometidos, se é que ocorreram.

Você parece estar pagando penas e pecados como quem vive no purgatório. Como criminosa condenada na eternidade pelo Pai Eterno.


SAGRADO X PROFANO II




Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel

2. O SONHO

Os limites são fundamentais na formação do sujeito social, e não é rezando, orando, ou clamando que se encontra solução para o comportamento social invasivo. A solução está na educação dos limites que se precisa ter para se viver em harmonia na sociedade.

A solução não é enfiar a cabeça na terra, aumentar os limites de resistências ao desrespeito, aumentar os limites de tolerância. Ao contrário, a solução está em aumentar os limites de respeitabilidade do outro. Isto é formação de cidadania.

Ampliando o tema, podemos aplicá-lo aos nossos problemas diários, A solução não é entregá-los aos cuidados divinos através de preces. Atitude e Postura de respeito é a conduta necessária na convivência social que precisa ser exigida nas relações.

Sua atitude no sonho é de passividade. Sofre o impacto do cenário daquela realidade e se refugia na compensação. Poderia até falar numa comportamento de omissão, que favorece o não envolvimento, o não comprometimento, mantendo-se como ausente escondido na imagem de permissivo.

Quem não aprende os limites sociais não desenvolve os princípios básicos e primevos da socialização humana. Mas vivemos o resultado de nossas conquistas e não o resultado das conquistas alheias.

No sonho ainda aparece a conduta da vitima passiva que sofre as consequências do outro. Não se esqueça de que o outro pode estar justificado na ocorrência da festa comemorativa.

Mas espera aí! O direito de comemoração dá ao outro o direito de ser invasivo?

Naturalmente que não. Mesmo que hoje em dia as pessoas se sintam no direito de se justificarem apenas observando seus direitos pessoais.

O que quero dizer-lhe fazendo uma reflexão rápida sobre a complexidade das relações é que tanto de um lado como de outro podemos encontrar justificativas para o que quisermos. O que não quer dizer que dessa forma sejamos respeitosos, verdadeiros ou justos.

Seu inconsciente pode estar tentando lhe mostrar que é importante reavaliar conceitos, atitudes e evitar a fuga através da omissão ou do papel de velha vitimada e conformista.

Diante da vida precisamos nos descobrir como sujeitos ativos, que buscam seu destino, que modificam e transformam a sua realidade ao invés de serem apenas vítimas passivas de um cenário infeliz.

E finalizando, o sonho nos remete à delicada questão do sagrado e do profano. Esses dois universos que nos envolvem e muitas vezes nos consome. Estando, como estamos, inseridos dentro de um plasma complexo, constituídos de naturezas opostas o sonho retrata o escapismo profano e o escapismo sagrado. E parece-me que nenhuma das duas opções são soluções favoráveis.

Na lei natural do desenvolvimento, jovens são mobilizados pela ânsia de viver prazeres, de viver o mundano Profano, e os mais maduros pela ânsia do prazer, de viver a harmonia mundana do sagrado.

E no sonho você aparece perdida entre uma possível necessidade ou desejo de viver como jovem a comunhão com Baco, e o consolo de estar vivendo como velha o anseio religioso.

Tudo certo, mas tá esquisito!

A velha questão resurge: Viver o prazer para esgotá-lo ou sublimá-lo (esgotando-o simbolicamente) para compensar a dificuldade e assim se libertar?

Possivelmente o caminho mais suave e natural seja o de:

Ser Jovem quando se é Jovem,

Ser Velho quando se é Velho.

Eu sempre tenho dúvidas sobre jovens que abrem mão da juventude para agir como velhos tanto quanto sobre velhos que abram mão da condição de amadurecimento para se comportar como jovens.

Ambas as condições envolvem inadequação, frustração e perda do norte e do “Timing” da vida.

A distância crítica que você cria da realidade afasta-a de sua realidade. Ser jovem não significa ser desordenado, desrespeitoso, invasivo, mas pode significar a chance de realizar uma vitalidade que anseia se expressar. Festejar, comungar, partilhar, brincar, relaxar, distrair, amar e até se permitir avançar e experimentar além de certos limites, mas acima de tudo viver como jovem sua possibilidade de ser jovem.

Você foi uma criança sem limites, que se transformou numa jovem limitada. Abandone esses exageros, são armadilhas. Relaxe viva o êxtase de ser jovem. Esse cavalo selado está passando.

Abrir mão dessa natureza é abrir mão do melhor que você pode viver neste momento: Descobrir o mundo como jovem. Você pode estar precisando se permitir ser mais jovem. Você não precisa ser uma jovem que chuta o balde para se permitir inconsequente, mas pode chutar o balde para viver sua jovialidade, abandonando a velha crítica, severa, vítima, chorosa e reclamona que vive em você.

Dessa forma você poderá viver com profundidade a religiosidade sem precisar viver a velhice distante.





terça-feira, 12 de outubro de 2010

SAGRADA LUXÚRIA PROFANA



PEQUENAS OBSERVAÇÕES  PARA TENTAR COMPREENDER

A BABEL MODERNA


A luxúria, quando o conceito diz respeito à sensualidade, não apenas deixou de ser pecado como passou a ser estimulada como meio de se atingir estágios de prazer na reconstrução da relação do individuo com mundo. Considerando características como: Inclusão e participação social; Aceitação e identidade social; Fortalecimento de autoestima; Status; Compensação de amadurecimento devido à infantilidade generalizada na sociedade. Na pratica sexual o individuo se afirma como individuo adulto, participante e com poderes de escolha e prática, reafirmando-se diante de si e do mundo

Por isso a busca de prazer sexual vem se tornando com o tempo, mais do que simplesmente a obtenção do êxtase carnal, mas uma experiência mística que estabelece uma relação do indivíduo com o universo, uma relação que lhe permite experimentar não apenas um instinto básico e reprodutivo, mas estabelecer uma relação com sua existência e com o Divino.

Na modernidade a busca do sagrado vem transformando a religiosidade humana e não pode mais ser vista como no passado apenas como resultado de práticas de crenças religiosas ou de aprimoramento intelectual ou de renúncia material. Essa busca impregna o individuo e transforma seus hábitos sua conduta. Aquilo que era pecado volta a ser natural, ele conquista um canal de conexão com o seu criador, uma possibilidade de tocar sua origem, sua essência.

Enquanto pensávamos que a sexualidade havia sido incorporada pela sociedade de consumo como produto econômico, podemos reconsiderar e dizer que as questões econômicas são apenas o aspecto externo do iceberg e as menos importantes.

Essa incorporação econômica da sexualidade humana na sociedade de consumo, como foco, meio midiático para vendas que tenderia a promover a banalização da sexualidade acaba promovendo a necessária compensação do equilíbrio sacralizando esse ato.

A sexualidade humana se desvencilha da culpa moral, social e religiosa, muda a relação entre homens e mulheres e estabelece aos poucos um novo estágio nas relações entre o sagrado e o profano na existência de cada individuo. Caminha para deixar de ser apenas ato mundano, profano e reprodutivo para se tornar em ato carregado de rituais e de religiosidade, consagrando-se como meio do homem se vincular a Deus. Ultrapassando as religiões e se tornando ato privativo ou coletivo no encontro consigo mesmo e com o divino.

Mas da mesma forma como a luxúria pode se transformar nesse ato de conexão com o divino, ela também pode se transformar em ato de conexão com o Diabo, lançando o individuo no mundo das sombras, liberando pulsões selvagens, primitivas e fora do controle e do respeito que a civilidade exige.

A prostituição infantil que deve ser encarada como crime hediondo, a ser rigorosamente punido, retira a criança de seu universo em formação e a lança num caminho devastador, para satisfazer desvios adultos pervertidos, e mostra a perigosa fronteira entre os limites do prazer e da barbárie humana associada à morbidez sexual, à busca do prazer sem respeito aos limites da convivência social.

Como em tudo na vida, as armadilhas palmilham os caminhos, a nós nos cabe a possibilidade de não abrir mão do bom senso. Pode ser preferivel o limite que permite a expansão do que a expansão sem limites que não permite o retrocesso.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

AFETO... LEITE SAGRADO - I



CARLA 148
Primeiro sonhei que estava chegando em casa quando vi o carro da minha madrinha estacionado na garagem. Como não gosto de visitas e sabia que aquela em específico era para mim, fui insatisfeita direto para o banheiro limpar meus óculos de sol. Conforme eu limpava a lente ela ia clareando como se realmente saísse a cor. Nisso minha mãe foi me chamar tentando dar a entender que eu não percebera ainda a presença da minha madrinha. Sem solução fui cumprimentá-la. Ela abraçou-me e já foi chorando, dizendo que sentia muita falta de mim, do meu abraço, e foi falando um monte de coisas. Pude notar com o sonho que, embora tenha meu lado carente, não tenho coragem de expressá-lo como fez minha madrinha no sonho. Achei a postura dela exagerada, muito carente, quase me colocando num pedestal. Eu não me sentia nada do que ela falava. Eu não me sentia como alguém que pudesse provocar tanta saudade e, ademais, por mais falta que ela me fizesse, eu não estava derramando nenhuma lágrima por ela, pois isso em nada mudaria a realidade da nossa distância.



O sonho traduz que sou uma pessoa fria, distante, com minhas reservas e, ademais, posso ser carente, mas não gosto de gente carente em volta de mim.

Madrinha é mãe substituta. Parece que apesar de sua carência,  não é a carência de mãe o foco do dilema. Isto pode reforçar a compreensão de que a existência do triangulo familiar, Filha X Mãe X Irmã, não envolve a questão da carência do seu afeto, e nem faz de sua mãe uma “Mãe Abandônica”. Já que o problema não é a carência o nó pode estar na competição que voce projeta e nos conteúdos ligados a essa disputa com sua irmã: inveja, egoísmo, caprichos, birra, vaidade, possessividade, ciúme, insegurança, fragilidade, infantilidade, etc.

Perceba a lucidez psíquica, mas não a pense como consciência. Essa lucidez é o senso do espírito do universo que nos chama permanentemente para a possibilidade de nos agregar ao seu eixo. Este espírito do universo que em nós pode ser traduzido como alma, necessita daquilo que desenvolvemos: A consciência, que quando agregada a esse espírito favorece a evolução e o sentido da existência. Sua psiquê amplia a indicação de sua questão primordial, aquele que pode estar definindo seu destino. E amplia essa compreensão quando nos clareia, num grau mais abrangente, a indicação do alvo onde está localizado o NÓ, independente dos outros que existam.

Naturalmente uma pessoa carente se alimenta de afeto e do carinho que lhe chega, se você escolhe uma fonte do afeto e despreza outras fontes, o problema “carência” se mostra pouco provável. Então essa suposta carência pode estar servindo para que você tenha sempre justificativas para sustentar determinados comportamentos, atitudes, caprichos, inseguranças, indisponibilidade, falta de afeto, distanciamento. Ou seja, serve para que você se esconda atrás desta máscara de carência. Serve para que você manipule as pessoas com esta suposta fragilidade.

É claro que se essa leitura estiver sintonia com a mensagem do seu inconsciente você pode parar de rodar ao redor do seu umbigo e encontrar um caminho, uma referência para sustentar suas mudanças. O caminho onírico é assim nos tateamos enquanto o Inc. vai nos indicando o rumo.

No momento seguinte você limpa seus óculos. Veja só: os óculos são protetores visuais e ampliadores de imagens. Você limpa os seus óculos de sol, não são óculos ampliadores, são protetores, e a cada limpada mais claros ficam seus óculos, o verniz é retirado, a defesa é retirada, a proteção excluída e o que acontece? Sua visão esta se ampliando, clareando.. Sem defesas você vai ao encontro da sua mãe substituta para receber e dar o abraço, que você nega. Ela realça a sua importância, valoriza a sua existência, e você que tem duas mães é que se dá ao direito de dispensar o amor e o carinho de uma delas.

A sequência do sonho é singular porque espelha a “carência” que você usa como instrumento e com a qual não se identifica, até mesmo se incomoda.

Bem, aqui pode aparecer uma incoerência: Geralmente tendemos a nos incomodar com o nosso espelho. É fatal: Se o outro te incomoda em alguma característica é muito provável que o outro seja aquilo que você é, e que te incomoda. O carente não suporta o carente, não suporta a carência de outro carente.

É possível que o surgimento da mãe postiça venha para suprir aquilo que sua mãe não lhe dá, mas sua obsessão só foca sua satisfação na sua mãe biológica. A vida muitas vezes nos ajuda a solucionar nossas carências por varias vias que não a original. É inteligência saber distinguir este apoio e aceitar a oferta para que possamos abandonar estes miasmas de um passado mal resolvido.

Sendo assim, não se pode descartar uma das possibilidades, elas podem estar corretas. Uma característica é autêntica e a outra pode ter sido uma produção incorporada como defesa. Quando construímos defesas a partir do idealizado, nós incorporamos aquilo em que acreditamos.

Vou citar um exemplo, sem segundas intenções, faço uso do exemplo para mostrar o raciocínio e não quero dizer que é o seu caso:

O mentiroso produz um grave problema. Cada vez que produz uma realidade imaginária para atender sua necessidade de manipulação dos eventos, aquilo que vai transformá-lo numa pessoa emocionalmente inconsistente é que com o passar do tempo ele vai incorporando suas mentiras, acreditando nelas, até que chega num ponto sem retorno quando perde as referências do real e do irreal, produzindo uma dinâmica de instabilidade e de insustentabilidade, a neurose.

Voltando ao tema: possivelmente você pode ter incorporado essa suposta carência como uma “verdade” que hoje não te larga. Uma referência de fragilidade, de falta, de ausência. E aquilo que era apenas um artifício, um instrumento se transformou numa encrenca, num conteúdo autônomo que hoje define sua forma de responder à realidade mas que não atende sua necessidades.

AFETO... LEITE SAGRADO - II



PEQUENA  MENSAGEM ONÍRICA


Mas se existe uma mensagem neste sonho ela pode ser um aprendizado: Antes de querer receber aprenda a dar, aprenda a amar independente de ser amada. Aprenda a abraçar, a distribuir carinhos e carícias, e também a aprenda a receber, seja de quem for. Não abrace apenas o belo, o jovem, o novo, o bonito, a estrela. Um dia a beleza acaba, a saúde acaba, a juventude vai embora, mas o amor, para aqueles que aprenderam a ser amorosos, fica.

Abrace com amor, como se estivesse distribuindo riquezas. Abrace de verdade, com autenticidade, com disponibilidade. Distribua amor. Quando tocar no outro toque com carinho, delicadeza, toque solidária, com compaixão.

Neste mundo hoje, onde há tanto sofrimento, dor, dificuldades, angústias, seja afetuosa com os menores, com os pobres, com os carentes, com os que sofrem, porque essa é a melhor forma de termos compaixão, de aliviar a dor dos necessitados. Estamos todos no mesmo barco, e a existência é uma jornada que muito exige de todos, e cada vez mais perceberemos o sofrimento ao nosso redor. Por isso procure ser leve, com carinho a gente consegue. Dê um pouco de si. O universo agradecerá lhe inundando de amor, suprindo suas carências. Deus é madrinha.

Quando ficamos muito focados na falta que vivemos, na falta do que temos, o sofrimento que sofremos parece que cresce, a dor aumenta, a solidão não cabe no coração, mas quando doamos um pouco de carinho, nossa dor se alivia, e a jornada se torna mais suave. É assim que me sinto.

terça-feira, 22 de junho de 2010

SAGRADO E PROFANO

CH 96
Sonhei que estava num recanto ao lado (ou aos fundos) do que parecia ser uma oficina de conserto de algo (não tenho certeza disso). Eu fechei o portão de ferro enferrujado e tentei encontrar alguma manga das que estavam caídas no chão, mas elas já estavam em processo de apodrecimento. Eram mangas da casca amarelada. Nisso, ainda agachada procurando uma manga boa, vi que havia alguém me olhando por baixo do portão. Peguei uma das mangas meio podre (não havia nenhuma boa) e joguei na direção como se dissesse 'quer manga, tome isso'. Como notei que a pessoa não saiu de trás do portão, ou seja, não parou de espiar-me nem com a manga podre que lhe joguei, fui na direção do portão e abri-o constatando que ali estava apenas uma cabeça e, embora pareça absurdo, ela parecia viva, mesmo que também em estado de apodrecimento. Fiquei um tanto com medo, mas pensei comigo que apenas uma cabeça não me faria mal algum e com um misto de revolta chutei-a varias vezes torcendo para que a alma dela nunca me encontrasse. Desprezei aquela cabeça com raiva. Depois eu já estava num local donde houvera tido um acidente e, embora não tenha visto, tive a impressão de que alguém, talvez uma criança, morrera atropelada. Havia uma mulher chorando muito e uma multidão de curiosos. Embora tranquila por não ter ligação direta com a cena, fiquei chocada pela dor que o momento e o fato expunham.
Por fim, pouco antes de acordar, sonhei que ia escrever algo no computador quando abri uma propaganda de dança do ventre ou de artigos para tal. Varias moças apresentaram dançando em imagens rápidas e dentre as belas roupas e adereços, fiquei atraída por uma de veludo estampado em tom verde musgo com pedrarias grandes. Para mim todas as roupas eram lindíssimas e foquei na verde porque ela combinava com a decoração do local e havia um tapete cuja estampa tinha daquela mesma tonalidade de cor. Essas são as pequenas lembranças que tive dessa noite.

No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. Gênesis 3:19

Os sonhos, por vezes, nos permitem traduzí-los numa mensagem. Além de sua possível significação, que se referencia em critérios. Ultrapassa o formal. Neste sonho por exemplo me permito traduzir-lhe numa mensagem que me veio de imediato:

A Dinâmica de expansão do universo nos coloca num sistema inexorável e impermanente, que divinamente anunciado pela religião e contextualizado cientificamente por Lavoisier que enunciou o princípio de conservação da matéria: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

No sonho você esta defronte à matéria orgânica em transformação, não apenas uma fruta ou uma cabeça, mas o que você é, o que nos somos. Matéria em transformação permanente. Hoje vivo, amanhã putrefato. Porque o desprezo? Porque a raiva? Negação deste destino trágico a que estamos submetidos.

Somos finitos, nascemos, vivemos e seremos, quando não pulverizados, transformados.

Se não nos transformamos naquilo que desejamos ou sonhamos, se não nos aprimorarmos, dia chegará em que a transformação definitiva finalizará aquilo que ansiamos conservar. Se aprimorarmos o que somos ou se não aprimorarmos, o fim será definitivo para todos. O que então muda? Porque então a busca do aprimoramento?

Se nos aprimorarmos temos mais chances de realizarmos uma jornada da vida mais harmoniosa, ou mais realizada, consistente e construída em bases e princípios universais.

Se não nos aprimorarmos, escolhemos a negação da impermanência, contrariamos os princípios de expansão do universo, sintonizamos o principio da retração, ficamos prisioneiros da negação, do retrocesso, da energia densa e bruta.

Portanto, elimine, se existir, os excessos: o controle presunçoso; a arrogância; a petulância dos egocentrados; a raiva dos desesperados; os medos; a ansiedades; o domínio; todo o excesso que carrega nos ombros. E principalmente purifique seu coração, tenha piedade e se afaste do mal. A maldade é viva e contamina. Purifique seus pensamentos, escute seu coração e busque o simples, o autêntico, a generosidade, a bondade, a amorosidade e caminhe em sintonia com o universo, o melhor de sua vida. E caminhe em direção à luz, e tenha compaixão e busque aplicar seus sonhos que na realidade seus sonhos, suas esperanças e pratique o que gostaria que praticassem com você.

É simplismos acreditar que não seremos encontrados. Todos pagam pelas consequências de seus erros. Não há escape para os equívocos, há apenas a conquista e a harmonia para os acertos. Para esses, a vida como que oferece a compaixão, negada para os que escolhem a escuridão. E cuidado com o “Belo” ele pode encantar pelo imediatismo, pelo foco estético, e cegar pelas aparências.

A imagem Visual ou Sonora pode esconder o que nos aprisiona, as amarras das quais precisamos nos libertar.

O sonho revela a sua forma de responder à essa dinâmica, profanando o sagrado, pois morto ou acabado. Ou sacralizando o profano com o simplismo dos descompromissados.

Veja: quando se defronta com a cabeça a desconsidera como representação de uma vida, de uma história, mas ao ver a mulher sofrida se condói, pois consegue enxergar a dor da perda. È capaz, a partir do lamento, de abstrair e compreender o sofrimento, mas deixa de perceber o sofrimento quando há silêncio na dor. Ou seja, sua visão só se completa quando associada ao lamento sonoro. Em leitura anterior relatei sinal de que fosse mobilizada pela visão. O inconsciente mostra que a audição é seu foco seletivo, a sua audição, o estimulo sonoro mobiliza sua compaixão e seus pensamentos de forma imperativa. É necessário que passe a pontuar seu pensamento para despertar outros sentidos e emoções.

Não podemos esquecer que os sons são imagens ou evocam imagens, tanto quanto imagens evocam sons.

É uma boa hora de rever seus conceitos idealizados e de passar a aplicá-los no seu dia a dia.

sábado, 1 de maio de 2010

O GRAN CANYON E O BREJO

Aquarela de Antoine de Saint-Exupéry
do livro "O Pequeno Principe"
CH57


“O amadurecer parece mais difícil do que imaginava a princípio.
 Essa noite sonhei que estava num local que identifiquei como cânion, mas ele era diferente, pois ao invés de ter pedras rochosas, todo o terreno era de barro. A parte baixa formava um brejal com valas fundas donde havia extensa e natural plantação de um bananal, mas era uma espécie de banana cujo pé não crescia muito e cujas folhas reluziam como se tivesse uma camada de verniz. Embora fosse um local turístico famoso, eu não gostei do mesmo e pensei comigo que se o terreno fosse meu, mandaria um trator acertar todo o solo e depois mandava replantar as bananeiras. Achei perigoso a permanência das pessoas naquele local. Alguém comentou comigo que só era possível estar ali na época da seca, pois somente em tal época a terra ficava compacta e sólida permitindo a caminhada naquela parte superior. Quando voltei para o hotel havia um beija-flor perto da porta do quarto e ele pousou na minha mão. Quis tirar uma foto dele e o levei para dentro do quarto, mas quando fui tirar a foto ele se transformou em um gato e então reparei que havia uma ninhada de gatinhos dentro de uma caixa bem ali perto. Encantada tirei várias fotos deles.

Outra vez volto a sonhar com bananeiras e gatos, essa repetição é sinal de que ainda não estabeleci progressos?”

A coisa parece mas não é tão simples. Vivemos em um universo em dinâmica de expansão, mas que sofre uma força da retração. Evoluímos enquanto forças em sentido contrário atuam e intervêm nessa expansão, ou regredimos enquanto forças atuam nos empurrando para a expansão, para o futuro. E nós? Bem... seguimos tentando escapar enquanto vivos, mantendo a saúde mental, para não sermos devastados ou devorados pelo devorador de almas: o tempo.

No sonho anterior abordamos a natureza da transição e do espaço e agora surge o beija-flor se metamorfoseado em gato. Nos sonhos os pássaros surgem como símbolos da personalidade do sonhador. Neste caso vemos uma representação de sua ambivalência como beija-flor e ninho de gatos. O pássaro mediador entre o céu e a terra, frágil, que paira no ar como quem resiste à força gravidade (lembra o sonho anterior?), mas que se metamorfoseia no gato animal tinhoso, seu preferido, dissimulado, egoísta do tipo que mantém relações por oportunismo, ainda que sejam ternos, mansos e escorregadios.

O gato é um predador. É felino. Não é um tigre, mas tem suas qualidades como caçador de primeira grandeza. No budismo o gato é aquele que não se comoveu com a morte do Buda (falta de afeto ou sabedoria de não envolvimento?). Na Cabala como no budismo é associado à serpente é indica o pecado, o abuso dos bens neste mundo.

“O Buda faz da Bananeira o símbolo da fragilidade, da instabilidade das coisas e que não merecem por conta disso absorver o interesse... “as construções mentais assemelham-se a uma bananeira”. É o símbolo da impermanência e da imprevisibilidade da vida.” Trecho de leitura anterior.

Se os abismos representam estados da existência sem forma definidas, o fundo sem fundo, lado das sombras, evocando o inconsciente, para Jung ele surge como uma indicação de uma natureza interior a ser explorada, para ser iluminada e conhecida. Uma aventura de libertação da alma para afastá-la de seus fantasmas, de suas sombras.

Nada mais natural que sua natureza seja de barro, de onde surgimos moldados do barro das origens divinas. Dei-lhe essas referências para que possa entender minha percepção:

Se este cânion é representação de seu inconsciente sua ação é uma tentativa de reconfigurá-lo,

“se o terreno fosse meu, mandaria um trator acertar todo o solo e depois mandava replantar as bananeiras.”

Eis a mão humana cumprindo o seu dever, realizando o que veio realizar, aprimorar aquilo que é aprimorável, mudar o moldável, iluminar as sombras, plantar para colher o frutificado.

Há bom senso na indicação de cautela com o terreno. É necessário cautela ao investigar, ao explorar, ao descobrir o desconhecido. Quando o solo não é firme, anda-se sobre terreno pantanoso, brejo, perigo, inconsistência, instabilidade. O terreno seco e firme é sólido e seguro. Se você em sonho andava em terreno sólido e seco e compacto a indicação é de que o caminho é um bom caminho de investigação. No fundo desconhecido a necessária cautela, no nível superior o terreno compacto de acesso aos níveis mais inacessíveis.

E aí, na volta o encontro com o beija flor e sua metamorfose em gato. Mas ele pousa na sua mão. Teu espírito tua alma pousa na tua mão, seu sopro de vida. De imediato, pensei na metamorfose, mas há um detalhe: O espírito a gente não fotografa, é inacessível ao registro posto que sutil, fugidio e sopro divino. Nem sua esperteza de querer fotografar foi tão veloz, já que consegue apenas registrar-se no espelho da lente transparente. Você sem o saber mergulha numa viagem às profundezas de sua alma, numa jornada Mítica e espiritual.

Lidar com o sagrado é assim, enquanto somos puxados para o acesso imediato na superficialidade e da materialidade, somos como que obnublados  da dimensão sagrada que vivemos e não conseguimos detectar as placas indicativas de nossa existência excepcional. Somos como prisioneiros de nossas ilusões e do que vemos fora de nós, e ficamos extasiados vendo afogados em êxtase girando ao redor de seus umbigos adornados de Ouro e riquezas, e deixamos de "ver" o essencial.
Bem o disse

 Antoine Exupéry em “O Pequeno Príncipe”:

“-Adeus – disse a raposa-
Eis o meu segredo.
É muito simples:
só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos.”

Eu acrescento:

O essencial é visível ao Olhar. Mas precisamos buscar esse essencial e direcionar o Olhar.

E aí?... Será que não estabeleceu progressos?

Bye.