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sábado, 22 de maio de 2010

LA PIETÁ E NARCISO

     The Villeneuve - lès Avignon Pietá
1455 - Louvre
CH 70


   LA PIETÁ DE MADONA
Essa noite sonhei que entrei com minha mãe em um centro espírita. Ele era bem pequeno e tinha uma mulher que era vidente (não sei como eu percebi isso). Havia bancos dos dois lados e no meio apenas o espaço de passar. Como haviam muitos idosos eu fui obrigada a sentar num banco quebrado para ceder os lugares bons. Em pé eu não queria ficar, pois imaginava que o atendimento fosse demorar. Minha mãe que estava sentada do outro lado não quis ficar longe de mim e veio para o meu lado. Nisso um senhor falou que transitar ali dentro pegava muita energia ruim e minha mãe tratou de sentar-se logo num outro banco meio quebrado que estava ao meu lado. Logo em seguida ela começou a tremer e depois desmaiou ficando com a cabeça caída em meu colo. Algumas outras pessoas também pareceram não muito bem, embora eu soubesse que tudo estava dentro do controle (sentia uma certa confiança com o ambiente religioso e o trabalho ali desempenhado, mesmo que estivesse nele pela primeira vez). Fiquei com receio de sentir-me mal também, mas isso não aconteceu. Não me assustei com a situação de minha mãe como se aquilo fosse natural ou estivesse acostumada a tal. Fiquei rezando para manter as boas vibrações enquanto aguardava a momento do atendimento. Houvéramos tido informações de que tal lugar era muito bom e sabia que íamos sair renovadas de lá. Não lembro o resto.

Alguns detalhes que considero significativos chamam-me a atenção, mas antes uma observação que se faz necessário:

Mudanças de comportamento acontecem em dois momentos específicos:

1. Na hora do evento existe um “momentum”, que ocorre num “Flash”, em que o sujeito implementa, aplica, coloca em prática a partir de escolha pessoal, uma nova atitude, um novo comportamento. Este momento é paradigmático e pessoal, pois o individuo deixa de repetir o passado e renasce em novas atitudes diante do mundo;

2. A Dinâmica da psiquê em processo e a partir de novas configurações gestálticas, formadas a partir de inumeráveis eventos, conduz o individuo a apresentar novas respostas diante dos acontecimentos que a realidade externa exige ou demanda. Este determinismo psíquico conduz o individuo no seu processo de maturação é também é resultante dos “imputs” que o sujeito implementa a partir dos acontecimentos e de suas respostas diante do mundo.



Quando olho para um sonho não posso apenas pensar em mensagens do inconsciente para o sujeito. Elas são significativas, mas apenas uma variável tão importante quanto outras que se mostram, entre elas o retrato da dinâmica por que passa e que serve para um mecanismo de auto regulação e determinador de novos imputs de mudanças.

Vejamos no sonho acima esse acontecimento: A psiquê a confronta produzindo um cenário em que a sua resposta e de generosidade, afetiva e de renúncia ao conforto pessoal. Para que isto ocorra você abre mão de sua postura egocentrada, de defesa dos interesses pessoais, do conforto pessoal, em prol do interesse coletivo, do respeito aos menos favorecidos, de doação aos que mais são exigidos.

Isto significa deixar de olhar para o redor do seu umbigo, olhar para fora e ver o mundo e a necessidade dos que precisam mais do que você. Abrir mão em função do outro mais necessitado.

Este foi o foco determinante para o homem sair do primitivismo a se tornar ser gregário e assim formar a base da sociedade humana, da civilização humana. Uns protegendo os outros para sobreviver às vicissitudes dos perigos da vida. Este é o nascimento da solidariedade.

E solidariedade só existe se existe afetividade, generosidade, renúncia aos interesses e conforto pessoal.

E olha que fantástico, ao fazer a sua escolha, você cresce, amadurece, como entidade, como indivíduo, como pessoa, como mulher. E como que isto aparece?

A imagem da filha que acolhe no colo a mãe desfalecida.

A imagem é arquetípica. Quando a Madona repousa no seu colo o seu filho, filho do Espírito Santo, o filho divino e sofre calada o sacrifício do filho, ela vive a dramática negação do instinto de preservação da espécie.

Natural é que filhos enterrem seus pais, Tragédia são os pais enterrando seus filhos, matando a esperança de continuidade da gênese na família, é o anti natural, o fluxo inverso. Por isso a tragédia da Mãe Divina comove a todos, por todos temem essa dor, dar a vida, alimentar, educar, amar e... perder.

No seu sonho o fluxo natural é reencontrada. A filha repousa a mãe desfalecida no seu colo enquanto aguarda a hora sagrada de receber a graça Divina, a cura.

Não há desespero, a calma prevalece, não há desequilíbrio a aceitação se faz presente. A Atitude madura de quem confia e espera o tempo, enquanto ora e clama em silêncio a graça divina.

Poderia pensar que o sonho é compensatório, que seu egoísmo lhe afasta desta realidade, mas não posso ser determinista, já que a dinâmica não é compensatória mas indicativo de que existe um processo de transformação ocorrendo e que a imagem surge para indicar que você pode estar reencontrando o rio da vida que corre para o mar.

Um dos detalhes que me faz pensar nesta possibilidade é a atitude diferenciada, não reativa. E mesmo que você assuma o papel de filha-mãe cuidando da mãe-filha, não posso dizer que é a filha que se faz mãe, mas a filha que cuida da mãe como cuidaria dos filhos, como foi cuidada.

Quando somos dependentes somos filhos sendo cuidados, mas a importância de nos libertarmos da dependência e conquistar a liberdade e a conquista do direito de poder cuidar de quem nos acolheu, amou, cuidou, protegeu. Pra que crescer? Para sermos respeitados como nossos pais, para que possamos lhes devolver o conforto, a segurança e a proteção e que possam suportar, no caminho natural da vida, o processo de envelhecimento, enfraquecimento e fragilidade e se transformem em filhos que necessitam cuidados, amados como o fomos por eles no passado.

A imagem da mãe desfalecida no seu colo é essa graça de poder cuidar da mãe sem ser revoltada com seus desígnios de vida. Eu sinto que as mudanças afetivas se fazem presentes no seu processo, se não o fazem o sonho não é retrato dessa dinâmica, mas apenas compensação e alerta para que retome o fluxo natural de sua vida e passe a dar importância ao que tem importância.

LA PIETÁ E NARCISO parte II



CH70 
     O AFETO NARCISICO


Depois eu estava na casa da família de um rapaz que parecia meu 'namorado' quase de verdade. Abraçada acompanhei uma amiga (não sei quem é, nem dentro e nem fora do sonho) até a porta, pois ela ia embora. Interessante a intimidade e apreço que pareço ter com determinadas pessoas dentro dos sonhos, algo além do que já experimentei fora deles. Depois disso comecei a procurar meu tênis (ou chinelo, não lembro), pois ia sair com esse namorado. Procurei o sapato em todos os cômodos até que ele me ajudou a encontrar. No que eu calçava, um outro sujeito apareceu e, escondidos atrás do portão de entrada, ele e meu suposto namorado começaram a se beijar. Embora sentisse leve ciúme, ele sempre deixara claro para mim que gostava de homem também e eu estaria do lado dele para ajudá-lo e não para atrapalhar. Entretanto, a irmã dele mais nova viu a cena e criou confusão dizendo que ia contar tudo para os pais. Eu sabia que, enquanto sua namorada, era uma prova chave de sua 'masculinidade' e não queria ver meu namoro acabar, muito menos desejava que ele se aborrecesse pela incompreensão e o preconceito dos pais. Eu me sentia bem com aquele namoro conveniente para ambos, pois era bom para meu ego tê-lo como um namorado, mesmo que ele não fosse exclusividade minha. Eu queria amenizar a situação, mas não sabia até que ponto podia intervir. Também pensei que talvez o pior o fizesse se decidir de uma vez por todas entre eu e o outro. Pena que não lembro o resto. Parece que o contexto de tais sonhos não são muito diferentes: relação materna,recinto religioso, envolvimento falso baseado em aparência e mentira, valorização do ego, etc. Nunca sei quais sonhos realmente podem indicar algo importante de ser analisado e daí estou anotando todos que lembro. Parece que meus sonhos ficam me testando em todos os sentidos...

Analisar os próprio sonhos é tarefa Hercúlea, não é questão de sabedoria, informação ou inteligência. É se olhar no espelho como alma, e necessitamos primeiro aprender a ter olhos. Não se exija isso agora. Nesse oceano de águas desconhecidas, distingui-lo é importante para chegar ao porto em segurança, mas a tarefa é pedreira. Por isso, enquanto eu  ainda apareço por aqui aproveite a oportunidade para ter companhia nesta busca, e quando eu já não mais acessar esse espaço, não deixe de seguir na sua caminhada. Acompanhado de um guia os caminhos se mostram menos obscuros, batemos menos a cabeça, apanhamos menos para aprender.

Os sonhos possuem esses mecanismos de confronto, é a forma que a psiquê encontra para que reavaliemos nossos conceitos, nossos preconceitos, resistências, tendências, desejos, fantasias, dificuldades.

Calçar seus pés, protegendo-os ou escondendo seu simbolismo fálico, pode ser evidência de que à medida que esconde seus desejos eles reaparecem em forma de homossexualidade. Você feminiliza seu masculino ou masculiniza seu feminino. Em sonhos anteriores essa erotização homossexual já apareceu em jogos sexuais femininos, desejos ou fantasias e agora aparece em conteúdos masculinos.

Em sonho anterior você afirmou sua heterossexualidade, mas há preconceito? Dificuldade em lidar com as diferenças de desejos? Culpa por ter vivido algum momento de sexo homossexual? Há conflito? Resistência? Defesa? Dificuldade com o tema? Há desejos secretos de envolvimento com iguais? Há ocorrências de medos? Ou seria o sonho apenas uma manifestação do narcisismo regredido?

Abordarei um pouco  da natureza narcisica do sonho. A associação que me vem é da imagem de Narciso encantado com sua imagem ( post Narcisismo no Blog Jornada da Alma) se apaixonando por si mesmo, por um igual.

Esses dois sonhos sequenciais eles são a imagem de nosso duplo “EU”, um constituído de uma natureza coletiva, originada no coletivo de dois seres e o outro singularizado no nascimento da individualidade, da pessoalidade, Possivielmente o narcisismo como conteúdo arquetípico seja, no desenvolvimento do individuo, a primeira ocorrência primária de formação do Simbólico . Uma ocorrência que nasce a partir do estabelecimento dos princípios básicos, concretos, e de garantia de satisfação dos instintos e da sobrevivência.

Ou seja, a partir do momento em que o individuo tem garantido o seu conforto de desenvolvimento (na barriga da mãe), ele repousa em águas tranquilas e se desenvolve seguro e protegido. Neste momento assegurado o equilíbrio, o corpo formado e em crescimento, deve-se primariamente aflorar a dimensão narcísica. O Rei, assistido, repousa, se alimenta e vive o prazer do princípio simbiótico.

A partir do parto, a mudança de meio tira o individuo do “paraíso” e o lança numa condição de instabilidade, neste momento a oralidade sacia a fome da sobrevivência, o calor do corpo materna diminui o desconforto do novo meio, e inicia-se a integração de nova sensações e percepções (aromas, afloramento de sensibilidades táteis e proprioceptivas, sensações de prazer e desprazer, conforto e desconforto, ampliação do universo sonoro e visual, etc.), e a instabilidade originada nas mudanças produz a regressão da natureza narcísica, já que o estado pessoal é lançado em ambiente até certo ponto “inóspito”.

As fases de desenvolvimento que se seguem irão consolidar essas duas naturezas: a narcísica e a coletiva, a individual e a social. E poderemos ficar aprisionados no narcisismo ou amadurecer pela consciência de que não somos únicos mas parte de um corpo muito mais amplo. O paradoxo é que quanto mais avançamos na consciência melhor nos situamos no coletivo e mais conseguimos restaurar a integração pessoal na construção de uma individualidade plena.

Neste aspecto o sujeito narcísico é apenas um retrato pífio deste momento que marca o nascimento da natureza singular da individualidade, e as manifestações que sobrevivem como uma resistência a essa mudança de “Estado” se farão visíveis por toda uma vida, como para confrontar o individuo na importância de aceitar a impermanência da vida, a maturação do individuo na participação do universo coletivo.

Mas narcísicos resistem nesta suposta “pessoalidade” se escondendo na formação e construção de um EGÃO, nas vaidades, no egocentrismo, etc, Como disse o paradoxo é que quando renunciamos a esse narcisismo, fonte e origem da construção do individuo e que encontramos a pessoalidade liberta dos caprichos. E quando o sujeito resiste neste comportamento centrado mais a psiquê precisa encontrar desvios para compensar o estado regressivo que impede a transformação e evolução do SER, produzindo desajustes emocionais e comportamentais no sujeito.

Como já mencionei, os sonhos sequenciais sinalizam essas duas natureza: A natureza coletiva que anseia se realizar e a pessoal regredida que quer evoluir. A Maternidade que se realiza em nós através do afeto, da generosidade, da compaixão e o narcisismo simbólico do ego centrado que quer o mundo girando ao redor do seu umbigo, como se Deus Criador o fosse.