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sábado, 4 de dezembro de 2010

ENLACE, AFETO E DESEJOS

        

 Satã Observando o Amor de Adão e  Eva
William Blake -Museu de Belas Artes Boston
                                                                   
Sonhei que havia entrado numa loja agropecuária na intenção de comprar (acho que) uma essência, mas eu precisava consultar minha mãe antes e nisso peguei a chave de um dos quartos do local planejando de lá dormir. Entretanto eu já estaria podendo ir dormir em casa. Parece que esta estava em reforma, mas não sei ao certo. Enquanto pensava se dormia lá e também se efetuava ou não a compra desejada, olhei para uma propaganda de lápis de cor aquarela e comecei a conversar com uma senhora que estava observando o estande de desenhos também. Disse-lhe que adorava trabalhos artísticos e não me imaginava sem lápis de cor em casa. Nisso parece que o sonho deu um avanço e logo na sequência sentei-me numa mesa aos fundos da loja. Havia um rapaz e duas moças na mesa e posicionei-me ao lado do rapaz. Nisso ele pegou minha mão e passando-a por trás das costas dele segurou-a do outro lado, de forma que fiquei abraçada a ele. No sonho ele pareceu-me um conhecido de longa data e, embora não compreendesse tal atitude de querer ficar abraçado a mim, notei que ele parecia menos arrogante e mais carinhoso. Pensei comigo no quanto é bom sermos passíveis de mudanças para melhor, pois eu também me sentia mudada: muito mais tranquila e segura de mim perante aquela situação. Vendo-me abraçada a ele pensei que os outros achariam que nós eramos um casal, já que eu usava um anel no mesmo lugar donde se usa aliança. Mas em seguida eu concluí o pensamento com a pergunta: e daí os outros e seus pensamentos?

Um vendedor veio nos atender e começou a conversar dizendo que me vira na rua quando fora fazer uma entrega e depois não parou mais de falar até o momento em que se retirou. Eu não estava interessada na conversa, apenas queria aproveitar aquela intimidade provinda do acaso. Estava aconchegante e fiquei abraçada sem saber quais seriam as reais intenções ou motivos que levara aquele rapaz a querer, inusitadamente depois de anos, ficar tão próximo. Desconfiada pensei que ele poderia estar com interesses maiores e busquei dentro de mim saber dos meus próprios interesses para com ele. Em verdade não consegui definir meus próprios interesses de antemão, pois tudo ou nada podia acontecer. Verifiquei que não poderia responder naquele momento sobre algo incerto que poderia ou não vir a acontecer no depois. Preferi deixar os fatos ocorrerem sem ficar matutando neles. Eu não queria desde tal momento dar uma de controladora da situação, nem muito menos me colocar na defensiva. Educadamente ele manteve-se abraçado a mim e sentada lado a lado, deitei a cabeça em seu ombro, coloquei pela parte da frente o outro braço em seu colo e fechei os olhos aproveitando o momento que embora misterioso parecia mágico. Nisso uma das jovens da mesa se transformou na minha avó e, em tom de crítica, comentou algo a respeito de trabalho. No sonho parece que eu estava desempregada, ou então seria o rapaz. Nisso a outra jovem respondeu que onde ela trabalhava estavam precisando de novos funcionários e num ar de sarcasmo perguntou se minha avó estava interessada de mandar um currículo para a empresa. Era como se ela quisesse dizer: se não é você quem está interessada, porque o comentário indireto? Eu estava tão bem que nem liguei para as indiretas de minha avó. Cada um com sua vida e coitada da vovó que julga os desempregados como vagabundos. Azar o dela em manter suas crenças destorcidas.

PSICOLOGIA E PSICÓLOGOS

Muitas vezes Psicólogos e Psicologia são criticados pelo tempo elástico de tratamentos. Críticas infelizes. Esse tempo terapêutico independe da ciência ou de profissionais, ele é ditado pelo “time” do sujeito que determina seu ciclo, sua dinâmica, seu movimento de mudança, o tempo de transformação. E se cada sujeito possui seu “time” a natureza tem seu ritmo em sincronia com o ritmo do mundo, do universo e determina em grande parte a consolidação das transformações que opera.

Neste sonho vemos algumas recorrências que me oferecem a chance de tentar mostrar o acontecimento, seu ritmo e intensidade.

Ainda que a sociedade humana contemporânea se caracterize pela aceleração, o “tempo” da vida não mudou, o tempo do universo continua o mesmo. Nós aceleramos nossa vida, nossos ritmos, nossas ações acreditando que mudamos a natureza. Mas o mundo e o seu Tempo permanecem o mesmo. Em equilíbrio rítmico e vibratório e quando o deixa de ser, em geral sofremos as graves consequências dessas transformações.

O corpo é lento e possui limites intransponíveis, altera-los pode significar promover desequilíbrio na delicada complexidade que sustenta os sistemas que nos dão a condição de natureza viva.

Vejamos o seu estado Onírico:

Você, ao longo desse ano vem registrando delicadas mudanças na sua configuração psy que refletem em seu comportamento em vigília e na dimensão onírica, indicam mudanças de atitudes, percepção, conceitos em decorrência de resignificação.

Pequenos acontecimentos que vão se transformando e que ao longo deste tempo já nos permite a percepção de transformações que posso qualificar como significativas. Principalmente porque não estamos em processo psicoterapêutico e com informações diminutas faço a leitura de seus sonhos indicando-lhe possibilidades, necessidades e alternativas de posturas diante de sua realidade.

Ainda assim podemos ver que ao longo destes meses seus sonhos mudaram significativamente, sinal da mudança psy.

Inicialmente uma fase superada foi a de pesadelos. Você os tinha numa recorrência preocupante, angustiante e desconfortável. Nos sonhos você sofria ameaças permanentes, inseguranças, medos, assaltos, roubos, assassinatos, sofrimento. Sempre a angústia, a ansiedade e o sofrimento. Dormir passou a se tornar ameaça de tormento e tormentas.

Mas você com inteligência, e necessitada, trabalhou para romper com esse quadro desagradável e infeliz. Soube ter paciência e humildade para considerar as indicações e realizar mudanças. Assim passou a obter resultados positivos em sua vida, administrando as disfunções e conquistando transformações, sinal significativo de sucesso.

Os pesadelos diminuíram ou praticamente desapareceram, passamos meses sem relatos de sonhos de angústia sinal de que a psique não tinha que intervir para proteger seus sistemas através de atualização, defesa e reequilíbrio.

Os pesadelos diminuíram porque a psique não precisa mais insistentemente regular os sistemas corporais, aumentar o limiar de sua capacidade de suportar as pressões internas, causadas por escolhas que a levavam permanentemente a situações de conflito, aflição e opressão, nem anunciar-lhe a iminência de situações de risco e de perigo. A instabilidade emocional foi sendo reduzida para níveis aceitáveis e você buscou estabelecer relações interpessoais mais aceitáveis e menos conflitantes.

Hoje a situação se difere do passado.

Sabemos que hoje você vive em dinâmica de transformação de símbolos, resignificação conceitual e reconfiguração na sua relação com a realidade, construindo padrões de comportamento menos reativos. E se vemos a recorrência de sinais ou temas isso decorre de:

1. Mudanças profundas exigem do sistema Psy alterações delicadas e pacientes, num ritmo que não coloque o organismo em risco ou ameaça de desconstrução;

2. Os ajustes se fazem em detalhes. Assim são as mudanças significativas. A codificação é alterada na especificidade.

3. Mudanças internas precisam ser assimiladas pelo sujeito para que se incorporem de forma consistente e sem conflitos, deixando de produzir sofrimentos em decorrência de valores e princípios resignificados.

Portanto não estranhe que uma leitura possa se aproximar de outras, isso demonstra a consistência do caminho que se percorre, tanto como pode reafirmar mensagens que precisam ser mais profundamente compreendidas. Mas não se deixe enganar, fique sempre atenta aos detalhes.

 
 
continua...

ENLACE, AFETO E DESEJOS


A Virgem - Gustav Klimt,
Galeria Narodni, Praga


O SONHO

O foco central do sonho é o afeto e a relação que estabelece com o seu desejo. Podemos pensar numa relação direta entre carência e desejo irrealizado. Quanto maior o desejo insaciado maior a carência ou a demanda por afeto. No seu caso, a força dos desejos é proporcional à força da repressão, e da expectativa de realiza-los sem precisar se comprometer. Como tudo o que envolvia relações e afeto lhe parecia confuso, maior podia ser a sensação de fracasso, a insatisfação, o isolamento e a frustração. E tanto maior a expectativa de saciar a fome do seu desejo.

Em geral quando isto ocorre, um dos desvios compensatórios pode ser a perversão o que também pode favorecer o aumento da repressão moral como forma do sujeito administrar a força de suas pulsões incontroláveis originárias do inconsciente.

No sonho você se aconchega, assume a atitude de aproximação, ainda não é capaz de assumir o seu desejo. Qual o seu desejo? Já lhe disse, distinga-o e procure a sua satisfação.

A postura defensiva se transforma, os conceitos são resignificados, mas permanecem resíduos de repressão, agora, revestido de “avó”. Velhos conteúdos, arcaicos, de referência feminina ou de mulheres do passado, que se contrapõe ao seu tempo, E você... Sem saber se segue a referência antiga, princípios de conduta social antiquados ou se liberta e assume a mulher que se permite seguir em busca da satisfação de seus desejos.

Sua tendência foi se proteger na repressão moral referendada em conceitos de gerações passadas.

Conceitos, preconceitos e novos conceitos. Esta é uma questão que envolve qualquer geração. Ser como a modernidade permite ou ser como foi a mãe, ou a avó? Arriscar a imagem pessoal e se mostrar como Devassa? Vender a imagem de Virgem Imaculada, ficando protegida socialmente mas sendo atormentada pelos desejos que corroem as entranhas?

Novamente a questão do Sagrado e do Profano.

Transformar-se no ideal de virgem santificada não acometida pela "sujeira" da sexualidade?

Arriscar-se no universo mundano, se permitindo a busca do êxtase carnal, se perdendo nos beijos profundos, na volúpia da  da carne penetrada, se entregando ao pecado e assumindo a mulher dona da própria vida, do destino e dos prazeres e da fantasia erótica?

Eu, pessoalmente, não vejo neste dilema um caminho fácil. Muitos apenas se lançam instintivamente realizando as pulsões da carne, mas para muitos isto pode significar um "suicídio". O dilema é crucial, renunciar ao pecado e viver a santidade, atormentada pelas fantasias do irrealizado? Ou se entregar à luxúria em busca de afeto, mergulhando no pecado e arriscando-se a se debater no inferno de Eros sem encontrar o caminho de volta para o sagrado? Ou acreditar que se pode megulhar na luxúria para arriscar encontrar o sagrado dentro do erotismo?

Não importa o caminho, cada um que escolha o seu, mas que seja um caminho vivido plenamente, para que no amanhã não exista o arrependimento do não vivido, que possa representar o grande fracasso e frustração. E óbvio, ter no mergulho o senso de se proteger porque o tempo é o senhor da razão, e ninguem deve ser tão tolo a ponto de acreditar que mergulhar nessa gosma de líquidos seminais e orgânicos não gera consequências indeléveis.

A questão do trabalho surge como o princípio de realidade que precisa ser considerado. É a grande referência, das conquistas pessoais: aprender a navegar nesta realidade para não morrer afogado na fantasia do irrealizado.

No sonho o trânsito pesssoal ainda indica rush, pouca luz sobre o tema, meia luz, as coisas não são muito claras, definidas. E as escolhas carregados de dúvidas ou conflitos. Comprar ou não comprar, trabalhar ou não, manifestar o desejo ou esconde-lo, etc. A estima ainda precisa ser consolidada e a libertação do julgamento alheio é o caminho para encontrar a maturidade.

A relação entre masculino e feminino vai sendo restaurada e caminha para relação interior mais harmonizada.
A jornada pelo aprioramento é assim, enquanto seguimos e rompemos as dificuldades mais suasve se torna a jornada mas mais dificeis e complexos se mostram os desafios a serem vencidos.

De resto uma certeza:

A vida é um grande desafio
para que se possa realizar os anseios do espírito.
É preciso arriscar,
É fundamental se lançar
para que possamos experimentar seus sabores e aromas,
Mas é imprescindível não se deixar morrer.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

SAGRADO X PROFANO



Em terceiro eu estava na casa de uma senhora cujos netos haviam tomado conta da casa, estavam dando uma festa nela e o som alto era estridente. A senhora veio me cumprimentar e começou a chorar e reclamar da situação. Aconselhei-a de rezar e tranquilizar a mente e o coração. Ela estava idosa, não tinha mais forças físicas, mas podia ter forças emocionais para não se irritar ou se entristecer com aquilo. Falei para ela entregar a situação nas mãos de Deus, desabafar e confiar a ponto de não se sentir abalada com aquele tormento. Expliquei-lhe que as pessoas possuem gostos e maneiras diferentes de viver, de conceber a vida e que só lhe cabia respeitar o fato da filha dela ter deixado seus netos tomarem conta da casa a ponto de promover uma festa, de encher a casa de gente e colocar aquela música barulhenta no ultimo volume. Compreendendo o que lhe dizia, a senhora abraçou-se a mim e assim ficou como uma criança que não quer largar o colo materno. Eu senti a carência dela por alguém que pudesse não apenas lhe compreender, mas lhe dar o apoio espiritual necessário. Nisso olhei para a bancada de bolos e doces que ali havia e, embora ninguém me houvesse oferecido, me convidado ou me deixado à vontade para comer, peguei um pequeno pedaço de bolo para provar. Depois peguei um doce e assim fui experimentando daqueles quitutes. Eu não estava com muita gula, pois embora tudo parecesse muito gostoso, apenas uma prova parecia deixar-me cheia.

Em dois tempos:

1. MECANISMO DO INCONSCIENTE

Não tenho informações sobre o local em que estava quando este sonho ocorreu. Se o local é barulhento, ou se naquela noite algum evento específico ocorreu neste cenário.

No sonho acima dois fatos podem estar inicialmente relacionados à condição física do ambiente e do sonhador:

1.

a) O BARULHO, ou ruídos, podem estar relacionados à redução da capacidade de filtros auditivos, o que seria indicativo de aumento do estresse do sonhador e consequente redução de defesas sonoras;

b) podem estar relacionados a ruídos elevados ocorridos naquela noite, naquele cenário, que tenham rompido o limiar de filtros e puderam ser utilizados pela psyquê para focalizar sua atenção sobre as relações sociais e a importancia da sintonia entre o comportamento e o momento da vida que se vive.

2.

a) O consumo dos doces podem indicar baixa glicose no organismo. Seria bom realizar, preventivamente, essa verificação através de exames;

b) A carência afetiva levando-a para a compensação oral através do consumo de açúcares.

A psyquê capta e se utiliza de recursos externos, estímulos que ocorrem enquanto o sujeito está em repouso, para enriquecer os sonhos, aumentando o realismo de sua construção onírica, através desses estímulos, o que favorece o fortalecimento da capacidade de retenção da memória do indivíduo dentro do sonho, consolidando sua consciência onírica, aumentando o limiar de resistência dessa consciência e a consolidando no sistema psíquico como estrutura de poder e referência. Este recurso serve, ainda, para focalizar determinados temas imprescindíveis ao sujeito.

Neste sonho, não por acaso, pode haver relação com a sua conduta no passado e com a forma desrespeitosa e invasiva com que, quando criança, estabelecia e definia sua forma de se relacionar com a familia. Preocupada com suas necessidades, se sentia no direito de atuar sem considerar as necessidades alheias.

Neste aspecto o sonho a confronta com uma realidade inquietante, desfavorável e perturbadora. E pode ainda haver culpa pelo passado desassossegado.

Naturalmente, hoje você possui outra consciência, e posturas mais amadurecidas. E sua psiquê, através do sonho, produz uma dinâmica que favorece a atualização dessa estrutura, e indique a necessidade de avaliar ou reavaliar a sua postura diante do acontecimento.

Mas internamente esse passado pode estar sendo compensado levando-a para um comportamento distante de sua realidade, do seu momento, do seu tempo.  É preciso abandonar as culpas do passado, os erros cometidos, se é que ocorreram.

Você parece estar pagando penas e pecados como quem vive no purgatório. Como criminosa condenada na eternidade pelo Pai Eterno.


SAGRADO X PROFANO II




Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel

2. O SONHO

Os limites são fundamentais na formação do sujeito social, e não é rezando, orando, ou clamando que se encontra solução para o comportamento social invasivo. A solução está na educação dos limites que se precisa ter para se viver em harmonia na sociedade.

A solução não é enfiar a cabeça na terra, aumentar os limites de resistências ao desrespeito, aumentar os limites de tolerância. Ao contrário, a solução está em aumentar os limites de respeitabilidade do outro. Isto é formação de cidadania.

Ampliando o tema, podemos aplicá-lo aos nossos problemas diários, A solução não é entregá-los aos cuidados divinos através de preces. Atitude e Postura de respeito é a conduta necessária na convivência social que precisa ser exigida nas relações.

Sua atitude no sonho é de passividade. Sofre o impacto do cenário daquela realidade e se refugia na compensação. Poderia até falar numa comportamento de omissão, que favorece o não envolvimento, o não comprometimento, mantendo-se como ausente escondido na imagem de permissivo.

Quem não aprende os limites sociais não desenvolve os princípios básicos e primevos da socialização humana. Mas vivemos o resultado de nossas conquistas e não o resultado das conquistas alheias.

No sonho ainda aparece a conduta da vitima passiva que sofre as consequências do outro. Não se esqueça de que o outro pode estar justificado na ocorrência da festa comemorativa.

Mas espera aí! O direito de comemoração dá ao outro o direito de ser invasivo?

Naturalmente que não. Mesmo que hoje em dia as pessoas se sintam no direito de se justificarem apenas observando seus direitos pessoais.

O que quero dizer-lhe fazendo uma reflexão rápida sobre a complexidade das relações é que tanto de um lado como de outro podemos encontrar justificativas para o que quisermos. O que não quer dizer que dessa forma sejamos respeitosos, verdadeiros ou justos.

Seu inconsciente pode estar tentando lhe mostrar que é importante reavaliar conceitos, atitudes e evitar a fuga através da omissão ou do papel de velha vitimada e conformista.

Diante da vida precisamos nos descobrir como sujeitos ativos, que buscam seu destino, que modificam e transformam a sua realidade ao invés de serem apenas vítimas passivas de um cenário infeliz.

E finalizando, o sonho nos remete à delicada questão do sagrado e do profano. Esses dois universos que nos envolvem e muitas vezes nos consome. Estando, como estamos, inseridos dentro de um plasma complexo, constituídos de naturezas opostas o sonho retrata o escapismo profano e o escapismo sagrado. E parece-me que nenhuma das duas opções são soluções favoráveis.

Na lei natural do desenvolvimento, jovens são mobilizados pela ânsia de viver prazeres, de viver o mundano Profano, e os mais maduros pela ânsia do prazer, de viver a harmonia mundana do sagrado.

E no sonho você aparece perdida entre uma possível necessidade ou desejo de viver como jovem a comunhão com Baco, e o consolo de estar vivendo como velha o anseio religioso.

Tudo certo, mas tá esquisito!

A velha questão resurge: Viver o prazer para esgotá-lo ou sublimá-lo (esgotando-o simbolicamente) para compensar a dificuldade e assim se libertar?

Possivelmente o caminho mais suave e natural seja o de:

Ser Jovem quando se é Jovem,

Ser Velho quando se é Velho.

Eu sempre tenho dúvidas sobre jovens que abrem mão da juventude para agir como velhos tanto quanto sobre velhos que abram mão da condição de amadurecimento para se comportar como jovens.

Ambas as condições envolvem inadequação, frustração e perda do norte e do “Timing” da vida.

A distância crítica que você cria da realidade afasta-a de sua realidade. Ser jovem não significa ser desordenado, desrespeitoso, invasivo, mas pode significar a chance de realizar uma vitalidade que anseia se expressar. Festejar, comungar, partilhar, brincar, relaxar, distrair, amar e até se permitir avançar e experimentar além de certos limites, mas acima de tudo viver como jovem sua possibilidade de ser jovem.

Você foi uma criança sem limites, que se transformou numa jovem limitada. Abandone esses exageros, são armadilhas. Relaxe viva o êxtase de ser jovem. Esse cavalo selado está passando.

Abrir mão dessa natureza é abrir mão do melhor que você pode viver neste momento: Descobrir o mundo como jovem. Você pode estar precisando se permitir ser mais jovem. Você não precisa ser uma jovem que chuta o balde para se permitir inconsequente, mas pode chutar o balde para viver sua jovialidade, abandonando a velha crítica, severa, vítima, chorosa e reclamona que vive em você.

Dessa forma você poderá viver com profundidade a religiosidade sem precisar viver a velhice distante.





terça-feira, 12 de outubro de 2010

SAGRADA LUXÚRIA PROFANA



PEQUENAS OBSERVAÇÕES  PARA TENTAR COMPREENDER

A BABEL MODERNA


A luxúria, quando o conceito diz respeito à sensualidade, não apenas deixou de ser pecado como passou a ser estimulada como meio de se atingir estágios de prazer na reconstrução da relação do individuo com mundo. Considerando características como: Inclusão e participação social; Aceitação e identidade social; Fortalecimento de autoestima; Status; Compensação de amadurecimento devido à infantilidade generalizada na sociedade. Na pratica sexual o individuo se afirma como individuo adulto, participante e com poderes de escolha e prática, reafirmando-se diante de si e do mundo

Por isso a busca de prazer sexual vem se tornando com o tempo, mais do que simplesmente a obtenção do êxtase carnal, mas uma experiência mística que estabelece uma relação do indivíduo com o universo, uma relação que lhe permite experimentar não apenas um instinto básico e reprodutivo, mas estabelecer uma relação com sua existência e com o Divino.

Na modernidade a busca do sagrado vem transformando a religiosidade humana e não pode mais ser vista como no passado apenas como resultado de práticas de crenças religiosas ou de aprimoramento intelectual ou de renúncia material. Essa busca impregna o individuo e transforma seus hábitos sua conduta. Aquilo que era pecado volta a ser natural, ele conquista um canal de conexão com o seu criador, uma possibilidade de tocar sua origem, sua essência.

Enquanto pensávamos que a sexualidade havia sido incorporada pela sociedade de consumo como produto econômico, podemos reconsiderar e dizer que as questões econômicas são apenas o aspecto externo do iceberg e as menos importantes.

Essa incorporação econômica da sexualidade humana na sociedade de consumo, como foco, meio midiático para vendas que tenderia a promover a banalização da sexualidade acaba promovendo a necessária compensação do equilíbrio sacralizando esse ato.

A sexualidade humana se desvencilha da culpa moral, social e religiosa, muda a relação entre homens e mulheres e estabelece aos poucos um novo estágio nas relações entre o sagrado e o profano na existência de cada individuo. Caminha para deixar de ser apenas ato mundano, profano e reprodutivo para se tornar em ato carregado de rituais e de religiosidade, consagrando-se como meio do homem se vincular a Deus. Ultrapassando as religiões e se tornando ato privativo ou coletivo no encontro consigo mesmo e com o divino.

Mas da mesma forma como a luxúria pode se transformar nesse ato de conexão com o divino, ela também pode se transformar em ato de conexão com o Diabo, lançando o individuo no mundo das sombras, liberando pulsões selvagens, primitivas e fora do controle e do respeito que a civilidade exige.

A prostituição infantil que deve ser encarada como crime hediondo, a ser rigorosamente punido, retira a criança de seu universo em formação e a lança num caminho devastador, para satisfazer desvios adultos pervertidos, e mostra a perigosa fronteira entre os limites do prazer e da barbárie humana associada à morbidez sexual, à busca do prazer sem respeito aos limites da convivência social.

Como em tudo na vida, as armadilhas palmilham os caminhos, a nós nos cabe a possibilidade de não abrir mão do bom senso. Pode ser preferivel o limite que permite a expansão do que a expansão sem limites que não permite o retrocesso.


terça-feira, 22 de junho de 2010

SAGRADO E PROFANO

CH 96
Sonhei que estava num recanto ao lado (ou aos fundos) do que parecia ser uma oficina de conserto de algo (não tenho certeza disso). Eu fechei o portão de ferro enferrujado e tentei encontrar alguma manga das que estavam caídas no chão, mas elas já estavam em processo de apodrecimento. Eram mangas da casca amarelada. Nisso, ainda agachada procurando uma manga boa, vi que havia alguém me olhando por baixo do portão. Peguei uma das mangas meio podre (não havia nenhuma boa) e joguei na direção como se dissesse 'quer manga, tome isso'. Como notei que a pessoa não saiu de trás do portão, ou seja, não parou de espiar-me nem com a manga podre que lhe joguei, fui na direção do portão e abri-o constatando que ali estava apenas uma cabeça e, embora pareça absurdo, ela parecia viva, mesmo que também em estado de apodrecimento. Fiquei um tanto com medo, mas pensei comigo que apenas uma cabeça não me faria mal algum e com um misto de revolta chutei-a varias vezes torcendo para que a alma dela nunca me encontrasse. Desprezei aquela cabeça com raiva. Depois eu já estava num local donde houvera tido um acidente e, embora não tenha visto, tive a impressão de que alguém, talvez uma criança, morrera atropelada. Havia uma mulher chorando muito e uma multidão de curiosos. Embora tranquila por não ter ligação direta com a cena, fiquei chocada pela dor que o momento e o fato expunham.
Por fim, pouco antes de acordar, sonhei que ia escrever algo no computador quando abri uma propaganda de dança do ventre ou de artigos para tal. Varias moças apresentaram dançando em imagens rápidas e dentre as belas roupas e adereços, fiquei atraída por uma de veludo estampado em tom verde musgo com pedrarias grandes. Para mim todas as roupas eram lindíssimas e foquei na verde porque ela combinava com a decoração do local e havia um tapete cuja estampa tinha daquela mesma tonalidade de cor. Essas são as pequenas lembranças que tive dessa noite.

No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. Gênesis 3:19

Os sonhos, por vezes, nos permitem traduzí-los numa mensagem. Além de sua possível significação, que se referencia em critérios. Ultrapassa o formal. Neste sonho por exemplo me permito traduzir-lhe numa mensagem que me veio de imediato:

A Dinâmica de expansão do universo nos coloca num sistema inexorável e impermanente, que divinamente anunciado pela religião e contextualizado cientificamente por Lavoisier que enunciou o princípio de conservação da matéria: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

No sonho você esta defronte à matéria orgânica em transformação, não apenas uma fruta ou uma cabeça, mas o que você é, o que nos somos. Matéria em transformação permanente. Hoje vivo, amanhã putrefato. Porque o desprezo? Porque a raiva? Negação deste destino trágico a que estamos submetidos.

Somos finitos, nascemos, vivemos e seremos, quando não pulverizados, transformados.

Se não nos transformamos naquilo que desejamos ou sonhamos, se não nos aprimorarmos, dia chegará em que a transformação definitiva finalizará aquilo que ansiamos conservar. Se aprimorarmos o que somos ou se não aprimorarmos, o fim será definitivo para todos. O que então muda? Porque então a busca do aprimoramento?

Se nos aprimorarmos temos mais chances de realizarmos uma jornada da vida mais harmoniosa, ou mais realizada, consistente e construída em bases e princípios universais.

Se não nos aprimorarmos, escolhemos a negação da impermanência, contrariamos os princípios de expansão do universo, sintonizamos o principio da retração, ficamos prisioneiros da negação, do retrocesso, da energia densa e bruta.

Portanto, elimine, se existir, os excessos: o controle presunçoso; a arrogância; a petulância dos egocentrados; a raiva dos desesperados; os medos; a ansiedades; o domínio; todo o excesso que carrega nos ombros. E principalmente purifique seu coração, tenha piedade e se afaste do mal. A maldade é viva e contamina. Purifique seus pensamentos, escute seu coração e busque o simples, o autêntico, a generosidade, a bondade, a amorosidade e caminhe em sintonia com o universo, o melhor de sua vida. E caminhe em direção à luz, e tenha compaixão e busque aplicar seus sonhos que na realidade seus sonhos, suas esperanças e pratique o que gostaria que praticassem com você.

É simplismos acreditar que não seremos encontrados. Todos pagam pelas consequências de seus erros. Não há escape para os equívocos, há apenas a conquista e a harmonia para os acertos. Para esses, a vida como que oferece a compaixão, negada para os que escolhem a escuridão. E cuidado com o “Belo” ele pode encantar pelo imediatismo, pelo foco estético, e cegar pelas aparências.

A imagem Visual ou Sonora pode esconder o que nos aprisiona, as amarras das quais precisamos nos libertar.

O sonho revela a sua forma de responder à essa dinâmica, profanando o sagrado, pois morto ou acabado. Ou sacralizando o profano com o simplismo dos descompromissados.

Veja: quando se defronta com a cabeça a desconsidera como representação de uma vida, de uma história, mas ao ver a mulher sofrida se condói, pois consegue enxergar a dor da perda. È capaz, a partir do lamento, de abstrair e compreender o sofrimento, mas deixa de perceber o sofrimento quando há silêncio na dor. Ou seja, sua visão só se completa quando associada ao lamento sonoro. Em leitura anterior relatei sinal de que fosse mobilizada pela visão. O inconsciente mostra que a audição é seu foco seletivo, a sua audição, o estimulo sonoro mobiliza sua compaixão e seus pensamentos de forma imperativa. É necessário que passe a pontuar seu pensamento para despertar outros sentidos e emoções.

Não podemos esquecer que os sons são imagens ou evocam imagens, tanto quanto imagens evocam sons.

É uma boa hora de rever seus conceitos idealizados e de passar a aplicá-los no seu dia a dia.