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domingo, 16 de janeiro de 2011

CEM ANOS DE SOLIDÃO

Coronel Aureliano Buendia - "Cem Anos de Solidão".
 em sua morte - ilustração de autor "não identificado"

Primeiro sonhei que eu conversava com alguém que me perguntou sobre algo do meu dia a dia. Disse-lhe que num momento era bom e no outro nem tanto. Daí não lembro se foi ele ou eu, mas um de nós comentou que em verdade o evento era sempre igual, a diferença estava nas minhas emoções perante os fatos, na mudança de postura sentimental, na minha predisposição racional de perceber o externo, analisá-lo e canalizá-lo para o mundo interno.

A experiência de viver poderia ser traduzida, na falta de outros recursos, como o efeito que um evento dentro da realidade promove no corpo de um individuo, cujo resultado é percebido/ sentido como uma “impressão”. Sobre isso Einstein nos alertou que uma onda produzida aqui reverbera por todo o universo. Nós detectamos algumas dessas ondas, e se assim não fosse, sem filtros a vida poderia ser um inferno, na percepção do caos.

A vida só existe dentro de mim. Ainda que este existir só exista em decorrência daquilo que existe fora de mim. A vida independe de minha existência, ainda que "exista" só a partir de minha experiência

Gabriel Garcia Marques , em “Cem Anos de Solidão” conta, se bem me lembro, que para proteger o Coronel Aureliano Buendia da loucura em que mergulha, ele é amarrado em um poste no terreiro, e ali fica durante um longo período. Depois de um certo tempo alguém lhe pergunta sobre os dias que ali passa e ele diz que não há mais domingos, pois todos os dias são iguais. Ele havia perdido a sensibilidade e mesmo que curado da loucura em direção a um estado "numinoso", tinha mergulhado no tédio ou no “non sense”. Ele morrerá em pé com a cabeça encostada na árvore e envolvido por borboletas. Ele é o realismo fantástico do viver.

Costumo dizer que a vida é cheia de armadilhas, a rotina é uma delas. Não porque haja igualdade nas ações de uma pessoa que todos os dias faz a mesma coisa, mas porque a sensibilidade fica entorpecida, e o sujeito acaba fugindo para o sem sentido de suas ações. Não porque as ações repetidas não tenham mais sentido, mas porque o sujeito perde a conexão e o poder de extrair significado de suas ações.

Mesmo que todos os dias o sol nasça, um dia não será igual a outro. Mesmo que façamos as mesmas ações do dia anterior, mesmo que vivamos aparentemente na igualdade e na repetição, o presente é sempre um novo presente, pois a realidade avança para o imprevisível. Pessoas se aprisionam no conforto da mesmice por escolhas, atitudes e posturas em suas vidas.
No sonho vemos que há uma consciência que amplia o seu conceito de “Estar ao Mundo” mesmo que continue “Estando no Mundo”. Há reelaboração conceitual na sua atitude diante do mundo ou da realidade.

Esta resignificação é fundamental porque define diretamente o seu “humour”, a forma como o fio de sua vida se desenrola diante de seu olhar.

No passado podia-se detectar com facilidade o pré-conceito, pré-construído do momento presente idealizado ou criticado, do cenário em que se inseria. O foco podia ser selecionado a partir da classificação que mobilizava o seu humor para reagir diante dos fatos que se desenrolavam. Assim acontecimentos normais na vida de qualquer pessoa poderiam lhe parecer desinteressantes e você poderia responder com certo ar Blasé, apática, desinteressada ou até banalizando a realidade em que estava inserida, reforçando a postura de vitimizada ou de superioridade que compensasse o seu sentimento de inferioridade. Tudo ligado à sua baixa estima.

A postura parece-me renovada. Há dinâmica de resignificação mental. Você identifica sentimentos, emoções e há disponibilidade para avaliar os cenários, em que se insere. Isso se dá com um olhar novo e não com o velho olhar classificatório. Não mais com a negatividade ou desinteresse pelo não atendimento de suas expectativas, mas com agradável e curiosa disponibilidade para o novo.

No sonho o conceito já está introjetado, você percebe e o expressa: O que faz a diferença é a forma como nos relacionamos com o mundo, o olhar. Se estivermos abertos para o presente, para aquilo que a vida nos propõe, ficaremos mais conectados com as infinitas possibilidades de retirar prazer dos acontecimentos que nos rondam.

A diferença: Quando a predisposição nos leva a não aceitação do mundo porque ele não é o mundo que queremos, a vida se fecha porque nós nos fechamos para a vida;

Quando há disponibilidade, a alma se faz grande, o espírito se amplia e se abre para descobertas que a vida nos reserva ou nos agracia.

Viver na opulência, no topo, pode parecer fácil e interessante, mas quando conseguimos retirar significados e riqueza do simples, nós enriquecemos o em torno, o transformamos num tesouro excepcional, ou passamos a ser capazes de detectar o extraordinário que nos rodeia.

Pouco importa o lugar onde estamos. Rodeados do belo ou do feio, do trágico ou do dramático, da riqueza ou da pobreza, o que importa é a forma como lidamos com essa realidade, a postura diante do mundo, a dignidade da presença e a atitude diante da vida, diante das pessoas.

Essa atitude favorece a percepção do mundo, a forma como ele penetra, invade e nos impregna de sentimentos e emoções. Os resultados podem ser míseros caprichos ou vaidades insaciáveis, percepções defensivas e ególatras, insatisfação, tanto quanto podem ser a descoberta de novos sentidos, sensações, sentimentos suaves e delicados, nobres e leves, de um tipo que inunda o espírito de luz.

O caminho me parece um bom caminho. Crescer e amadurecer é assim, a sofisticação da capacidade de perceber o mundo, a existência.

O presente é sempre um presente, só precisamos aprender a desvendá-lo para apreendê-lo em nossa experiência.

Ψ