Retrato de Marjorie Ferry -1932
Tamara de Lempicka
CH 37
Nas ultimas noites tenho a sensação de não estar sonhando e, quando sei que sonhei, não consigo ter lembranças claras.
Essa noite teve um pedaço que guardei em mente: eu estava numa casa que era da minha irmã (nada a ver com o apartamento no qual ela reside). Primeiro eu carregava a bolsa dela para verificar se as duas passagens aéreas estavam em sua carteira. Ela e meu cunhado iam viajar e fui atender o seu pedido de verificar se as passagens estavam guardadas. Eu passei pelo jardim que, ao invés de plantas, tinha pedras lisas e pretas bem grandes (batiam no joelho) e a bolsa dela estava muito pesada (devia pesar de seis para sete quilos). Eu não podia deixar a bolsa no jardim, pois facilmente algum ladrão poderia pegar. Não suportando o peso pedi ajuda para minha mãe e entreguei-lhe a bolsa para ela colocar dentro da casa. Nisso eu fui tomar banho e já estava despida quando vi vultos passando pelo jardim. Fiquei preocupada com a bolsa da minha irmã, mas não podia sair correndo nua. Chamei a atenção da minha mãe e depois minha irmã reconheceu que eram dois sujeitos que ela chamara para verificar algo que não escutei exatamente o que era. Todos já haviam tomado banho e eu ficara por ultimo, de modo que estava apressada em fazê-lo e, assim, despreocupei-me com o resto, ou seja, com o que estaria acontecendo fora do banheiro.
No que me despi e abri o chuveiro, a água estava praticamente fervendo de tão quente e, de repente, apareceram dois homens (um jovem e outro velho) para conservar o chuveiro. Enquanto isso meu cunhado dava auxilio de conserto olhando por cima (era como se ao invés de teto houvesse uma parte superior de madeira, algo que nem sei explicar). Constrangida me cobri com a cortina que separava o boxe, mas ela era praticamente transparente. Ao mesmo tempo eu tentava não ligar muito para o fato de verem o meu corpo desnudo (eu me sentia a vítima e isso me tranqüilizava), mas queria retirar-me do local para que eles não aproveitassem da situação a fim de ficarem me observando (eu não queria ficar apenas como vítima). Eu estava interiormente acanhada por não saber como reagir e irritada por eles terem entrado de supetão no banheiro e invadido minha privacidade. Sem alternativa eu saí de trás da cortina e, agindo com naturalidade (um tanto forçada), peguei meu roupão e vesti. Depois me vi vestida com um vestido por baixo do roupão e parecia ter dado o banho por encerrado. Creio que já ficara indisposta a ter que voltar para o chuveiro que estava tão difícil de ser consertado.
Continuação
Depois de finalmente consertarem o chuveiro, os dois homens e eu começamos a conversar. Não sei exatamente como foi esse inicio de conversa, mas sei que eu estava olhando fixo para os olhos ora de um e depois do outro quando me detive examinando a boca do homem mais velho. Ele tinha os dentes tortos e uma barba meio grisalha com partes ainda pretas e outras já completamente brancas. Comecei a pensar que ele mais parecia um mendigo do que um encanador quando ele, julgando de maneira errada o meu olhar, se aproximou segurando no meu braço em procura de mais intimidade. Mandei ele largar o meu braço e dava tapas na mão com que ele que me segurava, mas estes batiam nele de leve como se eu não tivesse a mínima força física para o movimento. Depois de três fracos tapas eu resolvi usar a entonação de voz e sendo completamente imperativa ordenei que ele me largasse enquanto fuzilava ele com um olhar direto. Imediatamente ele me soltou e, pelas minhas costas, disse numa tentativa de me amedrontar: ‘Você vai ver’. Era como se ele quisesse dizer ‘você ainda me paga por me recusar’. Muito corajosa eu voltei a encará-lo e perguntei muito séria e num tom mais nervoso: ‘Eu vou ver o quê? Você está me ameaçando?’ Ele pareceu assustado e nada falou. Voltei a insistir: ‘Fala homem, o que é que eu vou ver? Acha que eu tenho medo de você?’ Eu não podia saber ao certo se ele estava sem graça ou irado com minha reação, mas vendo que ele não tinha o que responder, eu fui para o quarto guardar o roupão. Minha irmã me olhava de lado com cara de reprovação e eu não entendia como tivera tanta liberdade para me defender daquela maneira ali, na frente dela. Neste momento me dei conta de que não eram apenas dois homens contratados para consertar o chuveiro, pois por certo, deveriam ser também dois conhecidos ou amigos dela e do meu cunhado que, inclusive, iam ficar para o jantar. De toda forma isso não mudava minha opinião de que o sujeito mais velho fora abusado tentando me agarrar em pleno corredor. Quando voltei percebi que todos já estavam na mesa jantando e, outra vez, estava eu ficando por último (assim como acontecera com o banho). Eu não estava com fome, mas sabia que precisava comer para depois não ter dor de cabeça (isso me aconteceu durante o dia). Quando ia entrar na copa o sujeito com o qual eu discutira veio me pedir desculpas. Disse-lhe com sinceridade que tudo bem, pois por mim nada acontecera e daria o caso por encerrado. Contentei-me pela possibilidade do entendimento, entretanto, bastante amuado, ele passou para o quarto e sem acender a luz, sentou-se na cama. Eu não sabia se ele estava se fazendo de coitado, mas aquilo não me agradou e disse-lhe: ‘Você não precisa ficar aí deprimido com o que aconteceu se auto-culpando, é só entender que não gostei da sua atitude e ter capacidade de assumir quais foram suas intenções sem joguinho de vingança’. Apesar da minha fala, ele continuou cabisbaixo como se quisesse que eu me sentisse culpada pelo seu estado de tristeza. Saí de perto dele demonstrando que não ia ficar acalentando ou consolando seu mal-estar. Longe de sentir culpa, pensei que ele ainda podia resolver se vingar de verdade e somente então tive uma ponta de medo, mas interiormente eu estava tranqüila comigo mesma e essa era minha força de coragem. Exatamente nesse ponto eu acordei.
Depois de finalmente consertarem o chuveiro, os dois homens e eu começamos a conversar. Não sei exatamente como foi esse inicio de conversa, mas sei que eu estava olhando fixo para os olhos ora de um e depois do outro quando me detive examinando a boca do homem mais velho. Ele tinha os dentes tortos e uma barba meio grisalha com partes ainda pretas e outras já completamente brancas. Comecei a pensar que ele mais parecia um mendigo do que um encanador quando ele, julgando de maneira errada o meu olhar, se aproximou segurando no meu braço em procura de mais intimidade. Mandei ele largar o meu braço e dava tapas na mão com que ele que me segurava, mas estes batiam nele de leve como se eu não tivesse a mínima força física para o movimento. Depois de três fracos tapas eu resolvi usar a entonação de voz e sendo completamente imperativa ordenei que ele me largasse enquanto fuzilava ele com um olhar direto. Imediatamente ele me soltou e, pelas minhas costas, disse numa tentativa de me amedrontar: ‘Você vai ver’. Era como se ele quisesse dizer ‘você ainda me paga por me recusar’. Muito corajosa eu voltei a encará-lo e perguntei muito séria e num tom mais nervoso: ‘Eu vou ver o quê? Você está me ameaçando?’ Ele pareceu assustado e nada falou. Voltei a insistir: ‘Fala homem, o que é que eu vou ver? Acha que eu tenho medo de você?’ Eu não podia saber ao certo se ele estava sem graça ou irado com minha reação, mas vendo que ele não tinha o que responder, eu fui para o quarto guardar o roupão. Minha irmã me olhava de lado com cara de reprovação e eu não entendia como tivera tanta liberdade para me defender daquela maneira ali, na frente dela. Neste momento me dei conta de que não eram apenas dois homens contratados para consertar o chuveiro, pois por certo, deveriam ser também dois conhecidos ou amigos dela e do meu cunhado que, inclusive, iam ficar para o jantar. De toda forma isso não mudava minha opinião de que o sujeito mais velho fora abusado tentando me agarrar em pleno corredor. Quando voltei percebi que todos já estavam na mesa jantando e, outra vez, estava eu ficando por último (assim como acontecera com o banho). Eu não estava com fome, mas sabia que precisava comer para depois não ter dor de cabeça (isso me aconteceu durante o dia). Quando ia entrar na copa o sujeito com o qual eu discutira veio me pedir desculpas. Disse-lhe com sinceridade que tudo bem, pois por mim nada acontecera e daria o caso por encerrado. Contentei-me pela possibilidade do entendimento, entretanto, bastante amuado, ele passou para o quarto e sem acender a luz, sentou-se na cama. Eu não sabia se ele estava se fazendo de coitado, mas aquilo não me agradou e disse-lhe: ‘Você não precisa ficar aí deprimido com o que aconteceu se auto-culpando, é só entender que não gostei da sua atitude e ter capacidade de assumir quais foram suas intenções sem joguinho de vingança’. Apesar da minha fala, ele continuou cabisbaixo como se quisesse que eu me sentisse culpada pelo seu estado de tristeza. Saí de perto dele demonstrando que não ia ficar acalentando ou consolando seu mal-estar. Longe de sentir culpa, pensei que ele ainda podia resolver se vingar de verdade e somente então tive uma ponta de medo, mas interiormente eu estava tranqüila comigo mesma e essa era minha força de coragem. Exatamente nesse ponto eu acordei.
Parece um sonho tão longe da realidade, mas ao mesmo tempo provoca em mim um estado de animo feroz em busca dessa coragem de equilíbrio para agir com naturalidade e reagir com maturidade tendo pulso firme em minha própria defesa. Será que foi um bom sonho?

