Galvão
Sonhei que estava em uma espécie de clínica , ou "pronto atendimento" de hospital, assentado em uma daquelas cadeiras com apoio para se retirar sangue, onde já tinha estado antes para um procedimento médico menos radical, que não tinha dado certo. Seria pois um retorno.
Chegou então uma enfermeira, que era a mesma que havia me atendido da outra vez, e mandando que eu esticasse meu braço esquerdo, pegou um bisturi afiado e, na altura do pulso, talvez um pouco acima, fez profundo corte contornando-o de fora a fora, como se fosse decepa-lo.
Virei o rosto para não ver, mas, mesmo não sentindo dor, percebi o sangue esguichando aos borbotões.
Sabia que se ela não executasse seu procedimento rapidamente eu poderia morrer. Era como se fosse uma luta contra o tempo.
Mas após alguns minutos voltei a olhar e vi meu pulso e antebraço envoltos fortemente com esparadrapo e atadura, e já o sangue estancado. Me deu sensação de que havia sobrevivido. Estava aliviado.
Antecipadamente agradeço-lhe a confiança. Tenho conhecimento de sua formação Freudiana e de seus conhecimentos, e fico admirado com sua busca para ouvir outra leitura, outro ponto de vista como analista. Para mim é um prazer receber sua confiança mesmo que aumente o meu desafio. Para fazer a leitura vamos considerar a realidade em que está inserido.
Você bem sabe, a riqueza de uma leitura está no entendimento do universo onírico associado às informações do cenário de vida do sonhador.
Em cinco tempos:
- · 1º tempo – Você na cadeira para retirar sangue;
- · 2º tempo - A enfermeira faz a incisão, o sangue jorra;
- · 3º tempo – Você olha para não ver;
- · 4º tempo – Você “sabe do risco da morte;
- · 5º tempo – O sangue para de vazar. Você sobrevive.
O sonho envolve nível elevado (3º tempo) de tensão e alívio da tensão (5º). Neste aspecto ele é compensatório, à medida em que é catártico. Ele sinaliza a tensão (angústia inclusa) e a compensa realizando o relaxamento, a diminuição da tensão
A imagem é clara: Você está no sacrifício, sendo sangrado. É realizado o ritual, feita a incisão. Você vive a angústia e a ameaça do corpo amputado, há ameaça de morte, mas o sacrifício é finalizado. O sonho parece-me ARQUETÍPICO e MÍTICO , e envolve uma relação delicada entre sua pulsão coletiva e seus caminhos pessoais.
Na história humana Sacrifício é a ação humana de sacralizar algo ou alguém separado daquele que o oferece, separado de tudo o que permanece profano, oferecido a Deus como prova de dependência, obediência, arrependimento ou amor. Este processo torna o profano sagrado, e a sacralização torna o objeto ou sua imagem propriedade divina e inalienável.
Neste aspecto podemos diferenciar o sacrifício de oferenda e o sacrifício de oferta. O sacrifício de oferenda é definido pelo coletivo que escolhe uma riqueza e oferece como prova de obediência, submissão e reconhecimento do poder divino ou superior. Assim no passado se ofereciam o sangue das Virgens Puras aos Deuses na busca do perdão, ou de salvação. Assim como ainda se oferece o sangue de cabras, galináceos, coelhos em rituais de magia, de Contrato; A escola Junguiana pode considerar esses “rituais de morte como a vitória do espírito humano sobre a animalidade e a bestialidade”, neste caso o sacrifício celebra uma vitória interior.
No sacrifício de oferta, o sujeito se oferece num ato heroico para se sacrificar pelo coletivo, ele abre mão de si, de sua vida em função do outro, mas compensa seu gesto incorporando a imagem do herói. O sacrifício é símbolo da renúncia aos vínculos terrestres por amor ao espírito ou à divindade. Mães (pais menos) abrem mão da vida em função os filhos, filhos em função de pais, irmãos em função da irmandade, etc.
A ação ou gesto de sacrifício no Antigo Testamento simboliza o reconhecimento da supremacia Divina. Já para os gregos é símbolo de Expiação, Purificação, Apaziguamento, Imploração Propiciatória.
O sangue é veículo da vida, sangue da vida, bebe-se o vinho como o sangue de cristo, bebe-se a vida. Veiculo da alma. O plasma da vida, o rio que corre dentro de nós, que transporta a proteção, a força, a vitalidade e o vigor. Sem sangue nós secamos como o deserto.
Quando o indivíduo é vampirizado, como que paradoxalmente sodomizado (elenão é penetrado, ele é sugado) , ele se transforma, ou morre ressecado ou se vampiriza como contaminado.
Eu precisei lhe lembrar esses dados para te situar dentro do contexto.
Se considerarmos o momento do sonho, ele pode fazer referência a uma postura de sacrifício em que você se colocou, oferecendo, como o sacrificado, o que possui de melhor ao coletivo (doando o plasma). Alguma parecença com cristo? Voce quase foi sacrificado. Naturalmente você incorpora o mito do Herói, do salvador, que abre mão de si mesmo, abre mão da vida em função de salvar o coletivo. Você sabe que correu risco de vida, em relação ao passado recente, colocou sua saúde em risco, sofreu, teve medo de morrer? E agora que a encrenca parece solucionada ocorre alívio da tensão, a sobrevida. Você cumpre o seu destino.
Eu penso que a relação com o passado é clara. Mas qual a relação com o futuro? Seu pai e sua mãe foram duas estrelas cada um com uma grande obra na vida. Ambos foram contaminados intensamente com uma “Identificação Projetiva” em que eles já não se diferenciavam do objeto, ou da obra que construíam. Por isso penso no seu caso numa relação semelhante: A “Participation Mystique”. Você incorporou a tarefa dos últimos cinco anos como uma obra de fechamento da história famíliar, e o seu risco não foi apenas a morte no sentido lato da palavra, mas a morte simbólica de sua individualidade, do seu universo pessoal, de sua vida. Assim esse sangue representa mais: representa sua essência maior. Mas dependerá de você realizar o fechamento, se diferenciar do objeto coletivo, sem deixar de olhar para o corte que se faz necessário. É um corte, não apenas no corpo, mas com o passado, com a repetição dos erros, para poder reconstruir novas relações, a irmandade adulta e amadurecida, aquela que não é apenas consanguínea, mas que é resultado do comprometimento dos que estão inseridos na relação. Aceitar o destino não apenas como o “Herói” que se permite ser dilacerado no Bravo Coração de Guerreiro, mas como o homem que tem sua vida a realizar, que tem seu destino a cumprir. E para cumpri-lo não basta apenas a submissão à força do coletivo, mas a maturação e o aprimoramento do pessoal. É verdade que temos que superar o coletivo, realizando o que os pais não conseguiram fechar ou aprimorar, mas este desafio é apenas a base para avançar na superação de seus próprios DESIGNIOS. Seus pais morreram, agora é a hora de você se salvar, sobreviver.
Espero que tenha conseguido acrescentar algo à sua visão freudiana. É o que me passou como significativo. Bye
