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domingo, 27 de junho de 2010

CONTURBAÇÃO


CH98


Essa noite sonhei que caminhava tranquilamente por um parque muito agradável quando resolvi mudar de caminho passando pelo meio de um milharal seco já tombado. Eu peguei um caminho estreito, a esmo e meio deserto, mas acreditava que fosse sair no mesmo final da trilha de caminhada do parque. Havia vários caminhos paralelos seguindo na mesma direção por mim escolhida, mas ao invés de sair onde supunha (aonde sempre chegava conforme costume por seguir sempre no mesmo caminho), tive de atravessar varias linhas de trens que vinham com total velocidade. Vi-me no meio de um caos inesperado. Além dos trens também tinham muitas carretas e os trilhos se misturavam com a avenida ao lado. Fiquei no meio deles fugindo ora para um lado e ora para outro. Quando consegui atravessar fiquei incrédula de ainda estar viva. Depois eu já estava deitada de bruços no topo de uma construção e via as pessoas voarem, inclusive passando pelo meio das copas das árvores. Eu estava com medo de cair dali, pois achava que não conseguiria voar também. Era como se eu estivesse viva, ou seja, com um corpo mortal, fazendo uma visita a um plano espiritual. Embora o topo da construção não fosse muito alto e houvesse esse medo de cair, estar lá era como estar nas nuvens. Não lembro direito, mas houve um momento em que pedi o beijo de três meninos (deviam ter de quatro a cinco anos) que estavam com o pai. Minha única intenção era demonstrar meu carinho e recebê-lo também.

Este é um bom retrato da vida, quando pensamos que estamos trilhando caminhos tranquilos nos descobrimos no olho do furação, no meio do turbilhão. E se não ficarmos focados naquilo que a vida exige corremos o risco de sucumbir frente ao impacto devastador da realidade ou das realidades.

O sonho soa, para mim, como um retrato cruel da realidade em que vivemos. Poderia considerar como fuga, como escape da realidade ameaçadora, mas não me parece. Posso compreender que a sensibilidade leva os sensíveis ao comportamento de evitação, mas a realidade exige de todos precisão nas atitudes e nas escolhas para se desvencilhar dos perigos e das ameaças da vida.

Você é levada de um nível baixo de tensão para o mais elevado, aquele que envolve risco de vida. Do relax para a alta tensão que lhe exige PRONTIDÃO (atenção, resposta, percepção da realidade, agilidade). Certezas, nem sempre indicam segurança, podem indicar limites e favorecer o conformismo. Nada nos garante que viveremos amanhã aquilo que projetamos, ao contrário, mais certa é a possibilidade de que amanhã iremos nos descobrir em algum lugar que nunca imaginamos ou sonhamos.

Voar em geral é associado a fuga de realidade e suspensão. Mas ficar no alto olhando outros voarem é atitude de observador, que percebe o peso do corpo, o peso da realidade, das forças que atuam em você. E os beijos já indicam mudança de atitude no comportamento e nas relações e interações. O afeto espontâneo. Belo sinal de transformação e mudanças.

quarta-feira, 17 de março de 2010

TORMENTOS II




Charlot36

Desastre,
 “enormes carretas foram literalmente passando por cima de todos os carros” Foi um massacre total e me deram como morta.” “eu não havia morrido, mas ela não acreditou que eu fosse eu.”... Fiquei desesperada...  Tinha de fazer algo. Perguntei a preta velha se era verdade que eu morrera... Eu ainda não havia morrido. Pedi ajuda.
Um acontecimento que ronda a fantasia de muita gente, é morrer e ser enterrado vivo. Ou seja, morrer para os outros, ter a consciência de estar vivo, mas ser considerado como morto. Não é apenas morrer, mas morrer sabendo que morreu sem morrer. No caso de ser enterrado o desespero aumenta porque o enterro define a impossibilidade de escape da situação, o que implicará em ter que morrer novamente, o que pode significar muita punição. No seu sonho é morrer sem ter morrido. O que nos remete a morte em vida. Esse o grande risco que corremos: estarmos vivos, mas simbolicamente não representarmos mais do que uma lembrança para os outros, e principalmente, independente do outro, viver sabendo que na vida estamos mortos, que a nossa dinâmica está paralisada, que pouco representamos, pouco realizamos, que nada somos. Vivos mortos, mortos vivos.
Veja que interessante: Após o “Grande Desastre” nas imagens iniciais do sonho, ocorre uma pausa e a mensagem parece clara: “Fiquei OBSERVANDO para meus pés que estavam calçados com algo improvisado...”.

 Duas possibilidades:
            1. Insatisfação pessoal. Você gostaria de estar calçada (diante da realidade) com outro calçado. Sua realidade é precária e te deixa insatisfeita. Seu foco é estético e não é funcional, te faltando pragmatismo, objetividade, pés na realidade;
            2. Há ocorrência de inadequação entre suas atitudes e os instrumentos que você utiliza para  se apresentar dentro do que lhe exige a realidade. Você observa, “O Olhar” para sua realidade, “seus pés”, e se percebe usando instrumental improvisado.

“... e relatou-me que para algumas festas era convidado, mas para outras, como a daquela noite, infelizmente o convite não era feito.” 
Lembre-se da música de Cazuza: “Não me covidaram para essa festa pobre que os homens armaram para me convencer... quero ver quem paga prá gente ficar assim”. A festa tá rolando e você não foi covidada, não se Sente covidada a participar. Eu pressinto mudanças de autoestima frente a este confronto: A necessidade de festas como demanda para aliviar seu elevado nível de tensão (ocorrências em sonhos anteriores) deixa de ser o foco e você independente dos fatos consegue manter-se diferenciada continuando o diálogo amigavelmente.
E aí, volta a confusão:
“...eu estava andando pela rua normalmente quando começou a acontecer um verdadeiro caos. Explosões, tiros, um enorme avião que foi decolar e caiu”
A mudança é que você apresenta postura, e PRONTIDÃO, iniciativa, se mobiliza para a sua proteção corre, se esconde, se protege. Mas... Sonhos são assim... Enquanto não nos diferenciamos em consciência a profusão dos acontecimentos nos envolvem de forma tão avassaladora que passamos para um estágio em que não sabemos o que fazemos, nem porque fazemos. Perdemos o fio da meada. Ocorre relação com a realidade? Sim, na vida, no dia a dia é assim, se não nos diferenciamos e se não mantemos nossas referências, os acontecimentos podem ser tão avassaladores que esquecemos a razão de nossas respostas, perdemos o fio da meada, perdemos a compreensão para o sentido de nossas respostas. Passamos a agir e a responder sem saber por que assim fazemos, sem termos a conexão com o fato determinante. Nos perdemos na profusão dos acontecimentos, passamos a ser apenas a reatividade, a resposta sem conexão com o evento desencadeador.
Você Foge. De que Foge? Porque foge? Você apenas foge para se proteger de uma ameaça abstrata, de uma realidade desfavorável. Foge para evitar ter que se mostrar, para não encarar o que você realmente é, e não sua idealização. Foge para se esconder na idealização do que quer parecer.
“Nisso a jovem que estava comigo deu-me cobertura e falou para me esconder embaixo do banco no qual ela estava sentada e assim, escondeu-me com sua saia rodada. Continuaram na procura e eu não cabia totalmente em baixo do banco.” Você se esconde por debaixo na barra da saia de uma mulher jovem. Frágil e ameaçada. Mas você é confronta até o seu limite de angústia e descoberta, desmascarada.
“Achei que eu fosse ser levada presa ou até que fossem me matar, mas unicamente avisaram que eu ia ser deportada.” Esse o seu medo: Se mostrar e ser marginalizada, excluída do meio, condenada, deportada para o desterro, lugar ermo, solitário, solidão. Condenada sem crime, culpada, submissa e escapista por medo de sofrer o degredo.
O aprisionamento em seguida dá mostra de que nem aprisionada você se livra do confronto e da ameaça.

A FUGA APENAS ADIA O ENCONTRO INEVITÁVEL COM O DESTINO